Empatia, psicopatia e primeira infância
Creio que a sensibilidade aflorada pela passagem dos festejos natalinos tenha motivado a FOLHA a nos brindar no dia 28 de dezembro com um primoroso artigo intitulado "O caminho para a empatia", , do professor/doutor Luís Miguel Luzio dos Santos (Espaço Aberto), uma entrevista com a psicóloga/professora Paula Inez da Cunha Grande, sob o tema "Psicopatas também são vítimas", e, por fim, nas páginas 7 e 8 com duas reportagens que tratavam da primeira infância, fase que vai do nascimento até os 6 anos. Três temas com enfoques diferentes, porém que mais do que mera informação jornalística, promovem uma reflexão sobre mudanças de atitudes necessárias para se fazer uma sociedade mais justa e humanizada.
Há muito reconhecemos que a primeira infância é primordial para a formação integral da pessoa e que os registros dessa fase repercutirão ao longo de toda a sua existência. Quando os registros negativos são mais acentuados, podem gerar distúrbios comportamentais que interferirão de forma decisiva nas atitudes e decisões da pessoa frente ao mundo. É assim para o cidadão comum, mas também o é para o psicopata, o dependente químico, o assassino etc.
O americano Carl Rogers, um dos mais influentes pensadores do século 20, educador e psicólogo humanista (1902-1987), criador da "Abordagem Centrada na Pessoa", afirmava que "todo ser humano nasce dotado de uma predisposição para a autorregulação. Se não a atingir, é porque não encontrou no meio as condições propícias". Colocava como a condição primordial para a autorregulação a compreensão empática. Essa condição - somada a outras - quando experienciada em profundidade promove uma sensação de unicidade, de segurança e bem-estar psíquico, ao que ele chamou de congruência. Quanto mais congruente o indivíduo, menores as possibilidades de desvirtuar-se.
Na primeira infância, conforme a matéria jornalística enfatizou, ocorre em torno de 70% da formação do cérebro dos seres humanos, logo, é fertilíssimo para se proporcionar as condições adequadas que formarão as bases para o futuro cidadão. A observação clínica dirigida por Rogers mostrou que pessoas que foram compreendidas empaticamente também desenvolveram empatia (termo que significa "sentir-se dentro", em referência a "sentir-se no lugar do outro"). É uma condição regida por leis internas e não pode ser falseada por convencionamentos sociais e regras. Uns a desenvolve em maior escala, outros em menor, mas todos podem aperfeiçoá-la com exercícios, conforme recomenda o artigo referido acima, com exceção para as pessoas profundamente incongruentes como é o caso dos psicopatas, onde ela é inexistente. É mais presente nos terapeutas, professores, religiosos, assistentes sociais, profissionais da saúde, etc., não como fruto da formação, mas ao contrário, por ter sido a motivação que os conduziu à formação.
Uma sociedade mais justa, mais fraterna, logo, mais humanizada, requer pessoas com capacidade de demonstrar empatia. A violência gratuita presente no cotidiano das nossas cidades e até mesmo os atos de corrupção, são oriundos da falta dela, que gera a ganância, egoísmo e a insensibilidade com o sofrimento do outro. Mas aquele que é capaz de colocar-se no lugar do outro de forma profunda e compreensiva, não deseja o que não lhe pertence.
Não ansiamos ter uma sociedade perfeita, mas reconhecemos que muitos danos sociais poderiam ser amenizados com um olhar diferenciado para a primeira infância, que tem se apresentado como fonte de todos os distúrbios, embora potencialmente seja a fonte de todas as virtudes.
JAIR QUEIROZ é psicólogo clínico e pós-graduado em segurança pública em Londrina
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