No 1º Simpósio Internacional de Abdominoplastia, em setembro em São Paulo, causou polêmica o tema apresentado pelo médico mineiro Evaldo Alves D'Assumpção, que é cirurgião plástico e tanatólogo (especialista no estudo da morte) e coordenador da Comissão de Ética e Consultoria Técnica da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), da regional mineira. Com 40 dos seus 64 anos dedicados à medicina, Evaldo vem estudando o poder que as pessoas teriam de boicotar a cura ou gerar problemas para si mesmas, inclusive o de estimular o ''suicídio endógeno'' morte provocada pelo próprio organismo , relacionando-os especialmente à cirurgia plástica.
Segundo D'Assumpção, o estado de desesperança decorrente de um desequilíbrio emocional ou da depressão abala o sistema de defesa do corpo e aumenta os riscos de problemas durante ou após a cirurgia, sejam complicações localizadas, como necrose e má cicatrização, ou generalizadas, como a evolução de um quadro infeccioso simples para a falência total do organismo. O que ocorre, como explica o médico, é que ''o paciente pode somatizar, no nível do consciente profundo ou do inconsciente como prefere Freud , aquele estado emocional e fazer com que uma pequena infecção evolua para uma septicemia e resulte em morte''.
Diferentemente de outras cirurgias, que ocorrem quando um problema de saúde é diagnosticado de forma objetiva, uma cirurgia plástica, caso não haja restrições de ordem clínica, pode ser motivada apenas por aspectos subjetivos, como um eventual descontentamento com o nariz ou com a barriga, tornando-se, assim, como pondera D'Assumpção, ''uma porta aberta para quem procura uma situação de risco maior do que a encontrada no dia-a-dia''. Sob essa perspectiva, aumenta muito a responsabilidade do cirurgião plástico, que ''deve saber como está a vida emocional do paciente, antes de se decidir pela cirurgia''.
Essa também é a opinião de Sandra Vargas Nunes, psiquiatra de Londrina que integra um dos grupos pioneiros no Brasil a estudar a Psicoimunologia, ou seja, a forma como a mente, o cérebro e os sistemas endócrino e imunológico comunicam-se permanentemente, regulando a imunidade orgânica. Sandra acredita que muitas pessoas confundem auto-estima com auto-imagem e imaginam que podem resolver uma insatisfação íntima mudando algo em sua aparência. Contudo, esclarece, ''os resultados obtidos nunca vão deixá-las satisfeitas, porque não é uma cirurgia plástica que vai devolver ou aumentar sua auto-estima''. Essa busca frustrante pode levá-las à desesperança, ''o que abaixa a imunidade e as torna vulneráveis a um risco cirúrgico não aparente, que deve ser pesquisado pelos médicos antes da definição do procedimento mais adequado''.
O estudo da relação entre desesperança e diminuição da capacidade imunológica não é novo. Os gregos da Antiguidade, comenta a psiquiatra, já associavam o estado de melancolia de seus pacientes a algumas doenças graves. Desde então, no entanto, a medicina evoluiu, absorveu tecnologia e acabou por perder a noção do todo, tornando-se excessivamente técnica e especializada. ''Hoje, a história de vida do paciente, seus aspectos psíquicos e sociais deixaram de existir para a maioria dos médicos'', alerta.
Em sua prática como professora da UEL, Sandra observa a resistência dos alunos em incluir esses aspectos em seus estudos e avaliações sobre os pacientes. O processo de mudança está em andamento, mas, ressalva, ''uma cultura tão arraigada só se modifica ao longo de décadas''. No futuro, então, quem sabe os médicos consigam ver mais do que um nariz a ser remodelado ou um estômago a ser tratado, levando em conta o sábio conselho do filósofo grego Platão: ''Enquanto só se tratar uma parte, o todo jamais estará bom''.

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