A perspectiva de acordo com o Fundo Monetário Internacional é sempre preocupante. A fórmula utilizada pelos técnicos de Washington fica, usualmente, dentro de uma moldura de iniciativas econômico-financeiras que abrange forte aumento de taxas de juros, redução da atividade econômica, desemprego em alta escala, privatização e favorecimento de exportações por todos os meios possíveis, inclusive a desvalorização da moeda.
Nada disso é novidade. É o programa de estabilização empregado em diversos países, como na Tailândia, na recente crise que abalou os países da Ásia. Nada de novo vai ocorrer por aqui. O governo já está negociando com o FMI, mas só deverá apresentar o pacote depois das eleições de 4 de outubro. O problema brasileiro está na contenção do déficit orçamentário que ocorre, no mais das vezes, por causa da gerência do dinheiro público nos estados e nos municípios.
É muito difícil para os técnicos do poder central se envolver em questões estaduais ou municipais sem ferir as normas do federalismo ou rasgar algumas páginas das garantias democráticas contidas na Constituição. Um governador tem o poder de emitir títulos para pagar precatórios. Alguns deles forjaram dívidas inexistentes e, na realidade, criaram dinheiro novo. Outros se socorreram dos bancos estaduais sem a menor cerimônia.
Os itens básicos do acordo com o FMI são conhecidos. Portanto, o principal problema está no relacionamento do governo federal com a classe política. A reforma tributária ainda não conseguiu consenso dentro das áreas técnicas do Poder Executivo, nem chegou a se constituir em matéria de entendimento unânime dentro do Congresso. Todos querem a reforma tributária, mas ninguém diz onde vai haver o maior corte de encargos e responsabilidades. Ou seja, ninguém quer perder recursos no período que promete ser de vacas magérrimas.
Algumas mentes mais apressadas já falam em mudança do modelo econômico, com objetivo de reduzir importações, aumentar exportações, ampliar a reforma do Estado e conviver com uma pequena inflação. Tudo isso, no entanto, cedo ou tarde, passará pela negociação com o Congresso. O governo federal, contudo, tem pressa. Quanto mais rápido fechar o acordo com o FMI, melhor será, porque terá condição de preservar alguns bilhões de dólares nas reservas do Banco Central.
Se a negociação ocorrer ainda este ano, os representantes do governo federal vão ser obrigados a negociar com muitos deputados e senadores derrotados nas eleições, cheios de dívidas em reais e dívidas com os eleitores. Essa é uma negociação extremamente difícil, que não contempla ideologias nem alinhamentos partidários. É uma das versões da realpolitik ao estilo brasileiro.
Quem não entender tal circunstância corre o risco de se enganar tanto quanto aqueles que apostaram no rápida aprovação da reforma da Previdência. Parlamentar em final de mandato, com uma derrota nas costas, está preocupado em quitar dívidas e começar a campanha para a próxima eleição. Isso exige dinheiro público em obras, realizações e acordos que prejudiquem seu adversário no estado e no município. O final de ano promete muitas emoções.

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