A tortura das pesquisas começou de novo. Tortura para os candidatos porque as pesquisas não querem ver ninguém bem. Só quem está em primeiro lugar é que gosta. O resto, a maioria, reclama e pede providências para que nas próximas eleições a divulgação de pesquisas seja mais criteriosa e fiscalizada. É sempre assim.
Mas a questão é mais sofisticada e não envolve só a torcida. A pesquisa já é considerada uma técnica científica que vem sendo testada desde a década de 30, nos Estados Unidos. No Brasil, com a introdução da reeleição, a análise dos resultados precisa também ser pensada de outra forma. Segundo o professor Thomaz Holbrook, autor do livro ‘‘Para que servem as pesquisas’’, que ainda não foi editado no Brasil, o candidato à reeleição leva de saída uma vantagem de 5% só pelo fato de ser governo e reduzir incertezas. Esse dado nós vamos poder checar agora, em outubro.
Quem gosta dessas novidades é o candidato ao governo do Rio de Janeiro, César Maia, ex-prefeito da cidade que depois de varrer a pista do sambódromo, usar jaqueta na praia com temperatura de 40 graus, se especializou no marketing e na lógica do processo eleitoral. César Maia acompanha de perto todas as eleições que se realizam pelo mundo. Quando não pode ir, manda uma equipe que vai e lhe traz dados exaustivos sobre todos os acontecimentos desses embates eleitorais.
Foi César quem descobriu o livro do professor Holbrook. Nos Estados Unidos existe uma vertente seguida por vários cientistas políticos cuja idéia principal é que as campanhas presidenciais se neutralizam, já que todos contam com as mesmas técnicas, os mesmos instrumentos de pesquisa e as mesmas possibilidades de comunicação. A outra corrente considera que a campanha é tudo.
Ultimamente existe uma tendência maior, por parte desses especialistas, em aceitar que as eleições num quadro de reeleição já estão decididas antes da campanha. O professor Thomaz Holbrook divide os fatores que contribuem para a vitória de um candidato em ‘‘Panorama Nacional’’, que mede o quadro pré-eleitoral, e ‘‘Eventos de Campanha’’. Quanto mais disputada for a eleição maior a importância dos ‘‘Eventos de Campanha’’. Embora não consigam alterar o resultado em 10%.
Nos Estados Unidos esse modelo é mais fácil de ser utilizado porque os candidatos saem das primárias conhecidos do eleitorado. Além do mais, a população sabe que ganhando um ou outro a mudança na vida do dia-a-dia será muito pequena.
Aqui, nas próximas eleições as diferenças doutrinárias que existem entre Fernando Henrique e Lula são grandes. Mas mesmo assim os analistas não levam em conta os elementos de campanha, como programação visual, cartazes, debates e programas de rádio e TV, a menos que alguns desses possam criar impacto e comoção. Ninguém ganha eleição, hoje em dia, por causa de um cartaz bonitinho ou por uma propaganda na televisão bem-feita. Com a reeleição estará em jogo a aprovação ou não do candidato que já está no poder. E a imagem do governante formada em três anos e meio de mandato não tem muitas possibilidades de modificação durante os poucos meses de campanha.
No caso do Brasil a campanha é tudo para a oposição. Porque não basta o descontentamento com o governo, o eleitorado também quer saber se a oposição tem condições de encaminhar um projeto de desenvolvimento e de políticas sociais que estejam de acordo com seus anseios. E é sempre bom lembrar: o eleitorado é conservador no sentido de não querer mudanças bruscas, não querer que mexam com ele. E nesse aspecto está o grande desafio de Lula
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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