Emancipação que gera dependência
No mínimo uma incoerência, porque emancipação quer dizer conquista de independência, mas não foi o que aconteceu com distritos que desejaram separar-se e converter-se em município. Na maioria, eles empobreceram e ficaram piores do que eram quando vinculados ao município-mãe. Caso de Tamarana, que era uma comunidade mais próspera quando pertencia ao município de Londrina, porque desfrutava de toda a infra-estrutura da metrópole. Agora revela o triste espetáculo da maquinaria sucateada assunto de ontem neste jornal situação desastrosa que o prefeito que ora assume atribui ao anterior. É a ciranda que sempre se manifesta em final de mandato e começo de outro. Tamarana é bem o retrato da inconveniência da separação. No Paraná, sobretudo nos 40 anos de mando do deputado Anibal Cury, comandante supremo da Assembléia Legislativa durante todo esse tempo (como presidente ou não), ocorreu uma desenfreada criação de municípios, e o resultado foi o que se esperava: mais empreguismo, mais necessidade de dinheiro para o dispêndio com as novas comunas, empobrecimento e continuidade da dependência, esta agravada porque não houve mais a presença do município sustentador dos tempos de distrito. O município em questão é produto da vaidade do então vereador (representante daquela comunidade) Edson Siena, que desejava ser prefeito e, como tinha poder de influência, lutou pela emancipação e conseguiu, alcançando também o posto de prefeito. Agora, o que assume é seu filho, Beto Siena, e foi ele quem levou as máquinas sucateadas para a praça pública e chamou a imprensa, visando mostrar o estado de penúria e justificar as obras e serviços que venha a não realizar, além de execrar o prefeito anterior, Paulo Nakaoka.
Mas não são apenas as máquinas. O atual prefeito sabia da situação do município e mesmo assim não titubeou em candidatar-se. Quando exercia o mandato, o Siena-pai viveu mostrando dificuldades e pedindo ajuda. A emancipação era apenas um título, não a realidade. Ao sair, deixou empenho de R$ 800 mil, muito mais que o necessário, agora, para recuperar as máquinas herdadas pelo filho. Manter a estrutura administrativa, secretários municipais, funcionalismo, nove vereadores, toda a infra-estrutura instalada, é um desperdício de dinheiro, o que não era preciso quando o lugar era distrito. Mais vaidade que bom-senso. Com a separação, Tamarana perdeu e Londrina perdeu. Porque o novo município teve que sustentar-se com seus próprios meios (e não tem conseguido), e Londrina perdeu população e território. O distrito como agora, mais uma vez, se prova não tinha estrutura para ser município, pois dependeu desde então, como dantes, de telefonia, universidades, sistema médico-hospitalar, assistencial e emergencial, dependeu de equipamentos e de todo o gênero de serviços. É, além disso, um município endividado, o que antes não ocorria. Tamaranenses mais esclarecidos falam reservadamente que Tamarana deveria retornar à condição anterior, reincorporando-se a Londrina, e assim a população seria melhor beneficiada. Um plebiscito iria surpreender muita gente daquela comunidade. São muitos os municípios dessa categoria cuja população quer retornar ao que era. Essa operação-desmonte, se viesse a ocorrer no círuclo dos 5.600 municípios brasileiros, resultaria num enxugamento do custo da máquina pública, e seria um grande avanço, com benefícios para as duas partes do processo: o município reconvertido a distrito e o município-sede, que recuperaria dimensão populacional e territorial. Sabe-se que isso afigura-se quase utópico, em face dos interesses políticos localizados. Certo é que o anseio de emancipação, para alcançar independência, é uma miragem, que resultou numa reversão, porque a dependência continuou, e, pior, agravou-se.





