Em tempo de S.O.S.

TT Catalão
‘‘Save Our Souls’’ é a frase que originou a sigla famosa do pedido extremo de socorro, S.O.S. ‘‘Salve nossas almas’’, pois os corpos já não teriam mais chance. Vale para gente, mas não vale para países ou cidades. Se os governos não salvam o ‘‘corpo físico’’ da região, das instituições, da estrutura de Estado, é a alma do cidadão que não consegue sobreviver.
O Brasil novamente está sob a penúria das enchentes e cidades ameaçadas pela proximidade da febre amarela são sinais graves de um retrocesso. Cheira a Oswaldo Cruz no início do século tentando nos tirar do atraso. Que mundo chegou a 2000? É a pergunta do Brasil do século XIX.
Talvez por isso a essência do cristianismo – livre dos dogmas das Igrejas – ainda seja tão atual e atuante: ninguém pode ser feliz sozinho! Nenhum povo conseguirá desfrutar, plenamente, dos avanços materiais enquanto houver humanidade em estado subumano. É a classe média que se tranca em grades, tem jóias mas só usa bijuterias, em público, tem jatos e pode morrer picada por um reles mosquito. É o terror e a loucura capazes de atentados em territórios seguros como shoppings e o prédio que ruiu em Oklahoma em 1995 (não foram ‘‘árabes sanguinários’’ mas pirados brancos bem nutridos).
O episódio do bug também é exemplar. Realmente só nos mobilizamos para o interesse material e nunca para o humano. A extraordinária soma, gasta com a ‘‘ameaça’’ ao patrimônio, foi uma demonstração eficaz de que se o mundo decide, mesmo, acabar com um problema, consegue! E se houvesse mobilização contra a fome, o trabalho infantil, a escravidão do novo colonialismo, a falta de acesso às ferramentas da saúde, informação, cultura e lazer?
A busca pelo básico, em estágio avançado de S.O.S., também esteve clara em pleno Réveillon – belíssimo como escala planetária – quando os 155 reféns do avião da Indian Airlines trancados oito dias, imóveis, olhos vendados, peregrinos sem-teto por cinco países, brutalizados e em silêncio só desejavam: ar puro, pão, água, afeto, comunicação e liberdade. Uma escala básica. Da qual nos distanciamos nessa armadilha de consumo, estratégias, posses, domínios e possessões. Ar, pão, água, carinho, convivência, liberdade, justiça... valores que deveriam estar priorizados. Mas optamos pelo bug como se, ao salvarmos os bens, atingíssemos algum bem-estar real, coletivo.
Vejam milhares de franceses ainda sem energia elétrica, com o Exército em prontidão e uma força tarefa de 1.200 comandos de toda a Europa – a Otan mobilizada na guerra não chegou a 25 postos – tentando reativar a vida simples cotidiana. E tudo por obra e desgraça do tempo, da fúria do clima, que em 1998 matou mais de 40 mil pessoas em enchentes, terremotos e furacões. E que fez de 1999 o ano mais quente da década desde 1860.
As luzes belíssimas de Paris refletiram-se na maré pastosa e mortal das 10 mil toneladas do navio Erika Valetta. Catástrofe quatro vezes maior que a de Amoco-Cadiz, da Shell, em 1978, e o acidente do Exxon-Valdez de 1989. E os números vêm sendo divulgados por um órgão, o Cedre, que tem ligações com a ELF-Totalfina, empresa responsável pelo crime. Logo, os números estariam sendo ‘‘aliviados’’.
Enfim, quando é que perceberemos que no fundo mesmo o que vale é ar, água, pão, carinho, contato e liberdade? O resto resultaria daí. Trabalho, festa, justiça, ritos, economia, paz...
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília