Em pratos limpos - Luiz Eduardo Cheida
Luiz Eduardo Cheida
Deixar um prefeito governar em paz é a melhor contribuição que um ex-prefeito pode dar à cidade. Palpites são bons, apenas quando solicitados. Assim tenho me mantido, desde que, há três anos, deixei a Prefeitura de Londrina. Neste meio de tempo, ouvi e li muitas bobagens vindas lá do Executivo Municipal, tais como: a prefeitura tem mais de 10 mil funcionários, a dívida da administração anterior é de cerca de R$ 200 milhões e outras tantas inverdades que seria cansativo enumerá-las. Desnecessário dizer que o número de funcionários é pouco mais da metade disso, e que a tal dívida deixada (somando-se os últimos 20 anos, não só a do último período) não chegava à metade do que foi apregoado.
Entretanto, na última sexta-feira, uma vez mais surpreendi-me com as prestações de contas, acerca dos recursos, que ainda restam, com a venda das ações da Sercomtel S/A. Como sei que, na prefeitura, não se contrata uma zeladora sem que o prefeito tenha conhecimento, também sei que estas prestações de contas, uma vez mais, a exemplo das outras tantas, têm a anuência do chefe do Executivo que procura novamente, ao que parece, jogar nas costas da administração anterior a responsabilidade pelos desacertos, nada responsáveis, de sua administração. Afirmo que estas prestações de contas são mentirosas, irresponsáveis, levianas e caluniadoras. E, se o chefe do executivo tiver o mínimo de decência deve, imediatamente, desmentir o que vou dizer:
Em setembro de 1996, a administração fez um adiantamento, jamais questionado, após lei aprovada na Câmara Municipal, de R$ 21,7 milhões dos bancos Sudameris e Fonte-Cindan. A indicação de tais bancos foi feita por orientação, escrita e assinada, do BNDES, banco público federal, depois que o Banco do Brasil e Banestado, também bancos públicos, consultados da mesma forma, por escrito, não manifestaram interesse no adiantamento. O contrato foi assinado no dia 23 de setembro de 1996.
Estes recursos, para absoluta transparência em sua aplicação, exigi fossem fiscalizados por uma comissão em que faziam parte, dentre outros, a Câmara Municipal, Associação Comercial e Industrial de Londrina, Sociedade Rural, Rotary Club, Lions Clube, funcionários da Sercomtel S/A, associações de moradores e sindicatos de trabalhadores de Londrina.
A prefeitura resgataria o adiantamento após vender parte das referidas ações, em bolsa (a lei proibia a venda direta, como depois, ilegalmente, foi feito). A Sercomtel S/A teria, ainda, a prerrogativa de vender as ações e saldar o adiantamento a juros de 8% ao ano mais a TJLP.
Cerca de 18 meses depois, a prefeitura paga cerca de R$ 48 milhões, por um adiantamento de R$ 21,7 milhões, que poderia ser resgatado a juros de 8% ao ano! Em 18 meses, a prefeitura pagou mais que o dobro do valor (em milhões).
O prefeito descumpriu a Lei Orgânica Municipal, o que enseja cassação sumária de seu mandato, ao não comercializar as ações em bolsa. O adiantamento estava caucionado apenas na venda de ações em bolsa e o pagamento foi voluntário já que os bancos não estavam executando o município. A prefeitura deveria ter pago apenas o que estava no contrato.
Depois de tudo isso, estarrecido, vejo a prefeitura afirmar que dos R$ 186 milhões obtidos com a venda de 45% das ações da empresa, R$ 74,5 milhões foram para saldar dívidas deixadas, na Sercomtel S/A, pela administração anterior.
As dívidas da administração anterior para com a Sercomtel S/A (depois de ter, praticamente, dobrado o número de telefones de Londrina, em quatro anos, passando-os dos 70 mil para mais de 130 mil) foram os R$ 21,7 milhões referentes ao adiantamento e mais três empréstimos: em fevereiro de 1993, R$ 6 milhões; em 9 de maio de 1996, R$ 1,2 milhão e em 31 de maio de 1996, R$ 2 milhões, o que totalizam cerca de R$ 31 milhões. Dívidas de contas telefônicas, foram deixadas pelas três últimas administrações.
Pois bem, a prefeitura agora confessa publicamente que, dos cerca de R$ 31 milhões, teria pago mais de R$ 74 milhões!
Aonde o sr. prefeito quer chegar com estas declarações irresponsáveis, levianas e caluniosas, eu não sei. Todavia, sei onde eu vou: exijo que a prefeitura mostre, publicamente, os contratos com os valores do principal de cada uma destas dívidas e seus encargos. Se não o fizer, dentro dos próximos dias, pessoalmente estarei ingressando no Fórum local com ação popular para que me sejam dadas estas informações.
Limpar o mar de lama que o prefeito meteu a cidade compete a todos nós. Para tanto, talvez seja mesmo o caso de começarmos por colocar em pratos limpos a memória dela.





