Em memória de Nassib e Olivieri
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de novembro de 2001
Teofilo Bacha Filho 
Os antigos cristãos viam a morte como o ''vere dies natalis'', o verdadeiro nascimento, no qual o homem realizava a plenitude do seu ser autêntico. Daí nasceu o costume de se comemorar os santos e mártires, não a partir do dia do nascimento, mas da morte o verdadeiro nascimento. Mas a morte não é fácil. Diante dela, todo o nosso ser reage. O homem não aceita que ao final da vida exista apenas um vácuo negro. Um fim. É certo que todos somos dominados pela certeza inexorável da morte. Ela nos é servida, na feliz expressão do ''Novo Catecismo'', pela própria vida, em pequenos bocados: uma decepção aqui, um amor que se resfria ali, solidão, doença, fragilidade corporal... são indícios da presença da morte.
A morte não entra como um ladrão no fim da nossa vida. Ela está presente na vida do homem sempre e em cada momento, a partir do momento em que o homem emergiu no mundo. O homem vai morrendo em prestações. Daí a afirmação de Heidegger de que ''quando um homem começa a viver já é suficientemente velho para morrer ''.
A morte, portanto, não vem de fora; ela cresce e amadurece no interior da própria vida. Ou, como dizia Santo Agostinho, no homem há uma morte vital. Apesar disto, vivemos sempre pensando em um novo amanhã. A morte é um mistério insuportável, ao qual nenhum coração humano consegue se acostumar. Efetivamente, a morte não se harmoniza com a existência humana, porque ela é radical: é o homem terrestre inteiro que morre. Por isto, o nosso coração circunda a morte com respeito. Cria-se silêncio em torno dela.
Os mortos, no entanto, vivem no meio de nós. O amor e a luz que alguém espalhou, a repercussão de uma vida cheia de retidão, as idéias que disseminou, tudo isto prolonga, na humanidade, a lembrança dos já falecidos. Mas, para os que acreditam na morte como cisão e como passagem, como cisão entre o modo de ser temporal e o modo de ser eterno no qual o homem entra, como passagem para uma forma de estar no mundo mais radical e universal, a morte é semelhante a um nascimento.
Ao morrer, o homem é como que arrancado deste mundo e mal sabe que vai irromper num mundo muito mais vasto, com sua capacidade de relacionamento estendendo-se ao infinito. A placenta do recém-nascido na morte, como descreve Leonardo Boff, é a globalidade do universo total. E, na feliz expressão do Irmão Luiz Silveira, ''os despojos do homem são semelhantes a um casulo que possibilita o emergir radiante da crisálida e da borboleta, não mais presa pelos limites estanques do casulo, mas aberta ao vasto horizonte de toda a realidade''.
Nessa perspectiva, a morte é acontecimento de fé e acontecimento de esperança. É a experiência do céu. Céu não é fruto da especulação ou da fantasia, um lugar ''lá em cima''. Mas é a potencialização daquilo que já experimentamos na terra. Sempre que aqui fazemos a experiência do bem, da felicidade, da amizade, da paz e do amor, já estamos vivendo, de forma precária, sim, mas real, a realidade do céu.
Sempre que experimentamos algo de profundamente humano, sempre que sentimos o mundo num sentido aconchegante, experimentamos o Ilimitado, o ''algo mais'' que circunda todas as coisas. No céu estamos dentro da casa do amor e da pátria da identidade. Tudo o que o homem sonhou, tudo o que as suas utopias lhe projetaram, tudo o que estava escondido em sua natureza e que se debatia para vir à luz, agora desabrocha e floresce. O ''homo absconditus'' emerge, enfim, totalmente, como ''homo revelatus''.
O que sempre foi almejado e ainda não experimentado, o que sempre foi buscado e ainda não encontrado, a derradeira identidade consigo mesmo, a união com o mistério inefável no qual todas as coisas existem, sem qualquer resquício de alienação, chega à sua máxima convergência. Diante da absoluta realização humana, a única linguagem possível é a do silêncio: ''Aquilo que o olho jamais viu, o ouvido jamais ouviu, nem jamais penetrou o coração do homem'', diz o apóstolo Paulo. A morte é a realização do princípio-esperança do homem. A convergência final e cabal de todos os seus anseios de ascensão, realização e plenitude.
Essa consciência permitiu à poeta Maria Helena da Silveira (1922-1970) escrever, aos 22 anos, na sua ''Canção à Morte'': ''Eu espero a Morte como se espera o Bem-Amado. Porque eu sei que um dia ela virá... e sob sua carícia eu adormecerei o sono da eternidade. E esse sono será um ressurgimento. Porque a Morte é a Ressurreição, a Libertação, a Comunicação total com o Amor total''.
- TEOFILO BACHA FILHO é membro do Conselho de Educação do Paraná, em Curitiba


