Desculpe-me velho barbudo de Trier por me apropriar de uma frase sua, mas um espectro ronda o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul): a guilhotina do Executivo municipal extingue aquele órgão e desloca suas atribuições e atividades para um canto menor da hierarquia do poder municipal. O motivo? A situação financeira da administração.

Em benefício dos executores, diga-se, não foram eles os criadores dos descalabros financeiros e administrativos da Prefeitura de Londrina. Ao que os fatos indicam há uma preocupação em reverter a herança recebida.

Nesse contexto, o Ippul caminha solenemente para o segundo plano da teatralidade do poder sobretudo por duas justificativas básicas: que gera uma despesa mensal que agrava a combalida situação das finanças municipais e de que detém pouquíssimos técnicos para gerenciar propostas para os problemas urbanos.

Desde sua institucionalização, o Ippul cambaleou e sobreviveu, entre altos e baixos, pelos recursos transferidos da receita própria da administração. Isso empresta-lhe conotações, segundo alguns formadores do consenso da reforma, mantendo a máxima do custo/ benefício, de órgão dispensável. Sobre isso basta que se diga que as possibilidades do órgão gerar receita são muitas.

Para argumentos de que lá residem poucos técnicos respondo que se assim o problema se apresenta é porque o planejamento urbano em nossa cidade, definitivamente, não é prioridade de governo. Se fosse, teríamos no Ippul um grande número de profissionais.

A dimensão da ''empresa'' denominada poder público depende do que pretendemos fazer com ela. Logo, é uma decisão de caráter político. Os custos que daí decorrerão emprestam legitimidade às ações e pretensões do administrador. Se o planejamento urbano não importa muito, por que dar recursos àquele órgão?

É preciso ter planejamento urbano em Londrina de maneira que justifique o custo de manutenção de um órgão que tenha essa atividade como foco? Para aqueles que fazem essa pergunta indago se a prevenção, na forma de antecipação, é ou não é o menor custo para resolução dos problemas advindos do sistema viário, do transporte coletivo, do trânsito, das questões ambientais, do uso e ocupação do solo urbano, das propostas para a moradia?

Essas questões (entre outras) fazem parte da atividade de um órgão de planejamento à semelhança do Ippul. O instituto, juntamente com o Conselho Municipal de Planejamento Urbano, compõe uma parte significativa dos mecanismos e instrumentos de gestão da política urbana. Se não lhe emprestamos o devido respeito político condenamos o crescimento da cidade, tal qual ele se apresenta, a ser resolvido por herança.

No passado, não tão distante, no mundo do poder, Londrina denotava mais crédito às obras que ao planejamento, daí porque, numa inversão de valores, o segundo subordinava-se ao primeiro. Para a lógica da política eleitoreira da época essa configuração funcionava bem.

Com o passar dos anos, diante das perplexidades do crescimento urbano, verificou-se que a questão urbana não podia ser respondida apenas e tão somente por obras. Eis porque fomos buscar nas recomendações dos profissionais técnicos de Londrina e fora dela a inspiração para a criação do Ippul. Sua criação, recordemos, foi fruto de uma longa trajetória de luta pela institucionalização do planejamento urbano como forma de condução do desenvolvimento urbano.

Como bem constatou nosso alcaide como membro da Comissão de Desenvolvimento Urbano da Câmara Federal, os desafios do próximo milênio estão relacionados ao gerenciamento de um mundo urbano. Tanto é que depois de mais de uma década o Brasil, afinal, promulgou o Estatuto da Cidade. Logo, fica a seguinte indagação: num município onde mais de 95% da população reside na área urbana terá sentido relegarmos as atividades de gestão da questão urbana ao conteúdo menor do poder? Colocar o Ippul fora da linha de frente do poder corresponde negar a sua essência como implementador da política urbana. E aí, meus caros administradores, na pressa em manter latente o fio da guilhotina, não perguntamos a quem interessa a extinção do Ippul.

Saídas para a crise? Comecemos por indagar se o órgão foi e é, realmente, objeto da prioridade política urbana e quem ganha com sua extinção. Se nada disso tem valor, então, que a lâmina afiada caia-lhe sobre o corpo (ainda que franzino) e seus pedaços poderão ser escondidos, como funções administrativas, num departamento qualquer da Secretaria de Obras. Mas nada de entabular o discurso mistificador da redução de custos, até porque, dias atrás, ''engordamos'' as despesas do Executivo apenas para ''dialogar'' com o Legislativo.

O fato é que, só pela tentativa explicitada, infelizmente, a administração já revelou uma face de sua identidade. A nós profissionais do urbanismo e outros estudiosos da cidade, resta, uma vez mais, como fizemos no passado, reconstruir os objetivos da velha luta, aqui e ali recolhendo os fragmentos do aprendizado da experiência da doce ilusão perdida por um equívoco político cujas consequências haveremos de recordar. Afinal, o retrocesso político também faz parte da história. Resta ainda esperar que o bom senso permeie a Câmara de Vereadores e se entenda que a escassez de recursos de hoje não é, certamente, um desígnio a que estamos condenados e para o qual não há saídas.

- NESTOR RAZENTE é arquiteto em Londrina

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