Há anos o cultivo do trigo reclama uma política de proteção e apoio governamental. O produto faz parte da dieta de todo brasileiro, seja na forma do pãozinho ou do macarrão, mas os produtores não têm qualquer incentivo ao plantio. Pelo contrário. Neste caso, há a concorrência com o grão in natura e a farinha oriundos da Argentina e do Paraguai, que entram no mercado doméstico com menor preço, favorecidos pelo Mercosul. Também é importante ressaltar que não se trata de desrespeitar o acordo comercial, mas de propor ações mais perenes, ao contrário de medidas pontuais adotadas até então.
Estatística do Departamento de Economia Rural, órgão ligado à Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento, aponta para uma redução de 28% na área cultivada, que caiu de 1,06 milhão de hectares na safra 2010/11 para 768,4 mil hectares no ciclo 2011/12. É uma das menores áreas dos últimos 37 anos. No Brasil a redução da área foi menor, cerca de 9%. Outro levantamento aponta que a farinha argentina domina 20% do mercado nacional, um índice demasiado alto para um País ainda agrícola.
Todo esse cenário reflete o descaso com a cultura. Independentemente do ''bom momento'' do milho - apontado como uma das justificativas para a redução do plantio do trigo - é importante propor novas ações para não desestruturar toda a cadeia. O preço de venda não pode ser menor do que o custo de produção. Uma redução de 26,5% no preço da saca de 60 quilos em quatro anos (segundo levantamento oficial), de fato, inviabiliza qualquer produção. O Brasil já é um dos maiores importadores do grão do mundo, motivo que justifica o fortalecimento da produção interna como forma de minimizar a dependência externa.
Por isso, iniciativas como a criação de uma câmara técnica para trocar ideias sobre a cadeia e buscar soluções que beneficiem a todos são extremamente positivas. No entanto, é importante que se busque sempre alguma efetividade, sob pena de essas discussões caírem no vazio.

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