Para dar um depoimento sobre os excessos cometidos na - ou pela - televisão, os alunos da Faculdade de Comunicação da ESPM do Rio tiveram a boa idéia, na semana passada, de convidar o deputado Fernando Gabeira. Não havia ouvido Gabeira na intimidade de uma sala de aula e devo reconhecer que é um excelente professor. Se um dia deixar de ser reeleito, tem emprego certo em qualquer universidade.
Mas o deputado surpreendeu a classe logo de saída, ao declarar: ‘‘Se vocês pensam que eu vou fazer coro com os que estão criticando os programas sensacionalistas, do tipo que fazem o Ratinho ou o Leão, e pedem, de alguma forma, a volta da censura para controlá-los, estão muito enganados’’.
Trata-se, continuou, de comentar ‘‘o uso do grotesco’’ na TV e se isso é válido ou não, no nosso contexto social. Gabeira lembrou que a utilização do ‘‘freak’’ - do diferente ou desviante - nos espetáculos populares é uma tradição muito antiga, que pode ser constatada, ainda hoje, nos circos mambembes que percorrem o interior do País. Todos eles têm os seus anões, a mulher barbada, ou muito gorda, o gigante etc. É antigo este fascínio, que torna tais espetáculos possíveis.
Para o deputado, a televisão, longe de ser uma influência inteiramente má - como desejam alguns de seus críticos mais ruidosos - tem exercido, no Brasil, uma função civilizatória, ensinando milhões de pessoas a falar, a vestir-se melhor e a assimilar regras básicas de convívio social. Neste processo, contudo, ela acabou desenvolvendo certos ‘‘cacoetes’’, que seriam reflexo dos preconceitos da classe média do Sul/Sudeste do País, em especial da cidade de São Paulo - que constituem o grosso dos consumidores dos produtos anunciados na TV e fornecem também seus quadros diretivos.
Isso fez com que os padrões geralmente aceitos na programação de TV sejam o da ‘‘beleza bem-comportada’’ e dos contextos bem-arrumadinhos das novelas - e também fabricou as ‘‘fadas louras’’ que povoam nosso imaginário matinal, desde Xuxa, passando por Angélica e Carla Perez. Ao dar sua preferência a Leão e Ratinho - observa Gabeira - nosso povo está dizendo que quer ver ‘‘gente de verdade’’, gente feia, cheia de problemas, como nós e como eles.
Não concordo com o estabelecimento de controles e de censura - continua - porque isso seria um retrocesso no que é, de fato, um sintoma da redemocratização do País desde o fim do regime militar. Para comprovar sua tese de que a grita geral contra os ‘‘excessos’’ da TV é uma tentativa de retorno à censura exercida pelos padrões morais da ‘‘classe média alta paulista’’, o deputado lembra que não há reclamações em relação ao que exibe a TV a cabo - porque ela é privilégio das classes mais ricas - da mesma forma que os militares não censuravam os livros, só acessíveis aos intelectuais - ‘‘que já eram, de qualquer modo, contra o governo’’.
Essas coisas ‘‘feias’’ e de ‘‘mau gosto’’, que a classe média critica - segundo Gabeira - são, de fato, manifestações do desejo de liberdade e de autenticidade das classes populares. Trata-se, no fundo, de uma fase, que vai passar, como passaram outros modismos.
Se citei tão extensamente o deputado, é porque concordo com ele. Como leitor de Bertrand Russell, e admirador de Nelson Rodrigues, aprendi que toda unanimidade é burra. Por isso, acho que a aula do deputado, na ESPM, foi original, corajosa e oportuna.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) no Rio de Janeiro

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