Em defesa de Papai Noel
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de dezembro de 1996
José Nêumanne 
À falta de assunto, que assola este período entre o Natal e o Carnaval e agravada pelo fato de o Brasil estar, felizmente, adotando uma democracia madura e, por isso mesmo, rotineira e tediosa, os meios de comunicação foram ocupados nestes últimos dias por laivos de uma nostalgia galopante. Ou, melhor ainda, ululante, como o óbvio de Nelson Rodrigues.
Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, com a habitual elegância estilística, ocupou espaço em quase todos os jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro para derramar sobre nossos olhos o bálsamo de seu generoso espírito solidário. No Estadão, concitou cada um de nós a ir um passo além do próprio umbigo: uma causa solidária, uma instituição de caridade, um projeto que minore a dor dos excluídos. Preocupar-se menos com o dinheiro e se ocupar mais com os outros.
A apresentadora Silvia Poppovic contou, em seu programa na TV Bandeirantes, sua própria experiência num Natal europeu. Lá, segundo ela, as pessoas trocam presentes, mas são sempre presentes simples e únicos, sem aquela obrigação de encher o amplo espaço debaixo do pinheirinho enfeitado. Na Europa, não é como aqui, onde estamos todos viciados no consumismo febril, próprio dos americanos - viramos autômatos, máquinas de comprar.
Muitas outras pessoas - e até instituições - se referiram ao assunto. Escolho o beneditino e a apresentadora como modelos de uma crítica politicamente correta, que ocupou obsessivamente as páginas dos jornais e das revistas e os programas no rádio e na televisão: o Natal não é mais aquele, pois as igrejas estão cada vez mais sendo substituídas, como pontos preferenciais de culto, pelos centros comerciais - os shoppings centers, símbolos concretos da febre consumista de nosso capitalismo mercantilista.
A mitológica figura do Papai Noel virou saco de pancadas. O escritor e jornalista Carlos Heitor Cony tornou pública sua aversão ao Bom Velhinho, que só seria tolerável num filme de Frank Capra. O cardeal-primaz do Brasil, dom Lucas Moreira Neves, arcebispo de Salvador, foi buscar num presépio medieval em Greccio, na Itália, tendo São Francisco de Assis como protagonista, motivo para o saudosimo dos tempos em que o protagonista da festa era o Menino Jesus.
Todas essas opiniões politicamente corretas são respeitáveis. Mas essa onda nostálgica dos velhos Natais (que, de certa forma, sem querer ofender, lembra aquela história dos velhos Carnavais que não voltam mais) não deixa de ser, ao mesmo tempo, inócua e injusta. O solidarismo desses críticos é muito bonito, mas sem sentido prático. Não há nada de necessária e genuinamente mal no comércio. É uma antiga atividade humana - tão antiga como a religião - que faz circular bens e serviços, gerando ocupação et pour cause remuneração para quem trabalha. Produzir, vender e comprar mercadorias e atividades, ao contrário, é uma prática saudável: faz a humanidade sobreviver, crescer e avançar.
A caridade - máxima virtude descoberta pelo apóstolo Paulo de Tarso, que lhe deu prioridade absoluta, no magnífico trecho do texto de sua primeira carta aos coríntios, aquele em que a põe sobre o conhecimento, a fé e a esperança - civiliza. Mais do que bela, a solidariedade torna o ser humano melhor e mais digno. No entanto, nosso instinto primativo não é o de ajudar o próximo, mas, antes de mais nada, sobreviver e proteger a família. Portanto, ninguém, em princípio, pode ser condenado por saciar sede e fome. Ou as dos entes queridos mais próximos.
Nós, brasileiros, temos excelentes motivos para comemorar este Natal, pois o faturamento das indústrias de alimentos cresceu 4%, atingindo US$ 63 bilhões. E comemorá-lo euforicamente, como o fez um comerciante do Shopping Center Butantã, em São Paulo, que, na tarde de 23 de dezembro, foi visto aos pulos, dançando com o boneco do Papai Noel, o mesmo desprezado pelo ilustre escritor. Ele berrava, eufórico: Papai Noel, você me salvou. Esta é a imagem positiva que apresento do Natal mercantilista deste ano.
A meu ver, ninguém deve, pois, se sentir culpado por ter presenteado as pessoas queridas ou delas merecido boas lembranças. Isso só prova afeto e consideração, tendo, portanto, enorme valor humano - como não? Afinal de contas, tais presentes significam mais produção, mais comércio e mais dinheiro circulando na economia, garantindo mais e melhores salários para muitos trabalhadores.
Ninguém pode se sentir infeliz por estar a cidade onde vive cheia de luzinhas cintilantes e coloridas cobrindo troncos de árvores, paredes e pórticos. Como lembrou o economista Roberto Macedo, isso se deve também ao fato de um conjunto de 140 lampadinhas com caixa de música estar sendo vendido pela pechincha de R$ 7,00. Viva a abertura da economia! O brilho e a cor do mais belo Natal das grandes cidades brasileiras vêm da China para mostrar que este - o da globalização - é, apesar de todos os pesares e dos protestos saudosistas, o melhor Natal da vida de grande parte dos brasileiros. Até o do ano que vem - que seja nada melhor. Por que não?
- JOSÉ NÊUMANNE é jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde, acha que nem sempre comércio e religião se antagonizam.


