Vivo cercado de críticos do presidente Fernando Henrique. Injustamente lhe negam os méritos pelo que fez e reclamam pelo que deixou de fazer, acusando-o, inclusive, de ter rasgado o que escreveu, traindo a si próprio. Não tenho lido o que FHC escreveu antes de tornar-se o político que é, mas mesmo que tenha dito algo diferente do que pratica, isso não o torna um ser estranho no contexto de uma sociedade que muda constantemente, obrigando-nos a recuar, rever posições e mudar de lado. ‘‘Aqueles que nunca voltam atrás em suas opiniões, amam mais a si mesmos do que amam a verdade’’ (Joubert). JK, tido como um dos nossos maiores presidentes, dizia que costumava voltar atrás em seus posicionamentos, sim, porque não tinha compromissos com o erro. ‘‘Triste não é mudar de idéia, triste é não ter idéias para mudar’’ (Barão de Itararé).
Um presidente que acabou com a hiperinflação, que elevou a auto-estima do seu povo, que incorporou milhões de cidadãos ao mercado consumidor, que recuperou o respeito, a dignidade e elevou o prestígio do seu País no exterior, merece consideração. Comete erros, pois errar é humano. Só Deus é perfeito. Neste planeta de pecadores, só erra quem faz e é preferível errar fazendo do que não cometer erros assistindo às coisas acontecerem.
Seria oportuno admitir que todos temos, ademais do dever de acertar, o direito de errar. FHC, também. Reconheçamos o valor deste presidente agora, para não sentirmos amanhã, além de saudades do seu governo, o arrependimento por não tê-lo apoiado, pois éramos felizes e não sabíamos.
Não é justo cobrar de FHC a solução de todos os velhos males que afligem a nossa sociedade, muitos deles tão antigos quanto o próprio País. Creditemos a ele o mérito pelo fim de alguns desses problemas e pelo encaminhamento para uma quase solução de outros, sem valorizar demasiadamente aqueles que ainda persistem insolúveis. Se bem que ainda não podemos comemorar uma distribuição equitativa da renda nacional, ao menos podemos sentir que a economia está crescendo no rumo certo e que um dia chegaremos lá. Já estamos vendo luz no fim do túnel, depois de décadas sem sequer saber se existia um túnel.
Numa democracia como a nossa, a autoridade de FHC é a maior, mas não é a única. Ele não governa o País sozinho. Divide o poder com o Legislativo e com o Judiciário, de quem precisa concordância para implementar as reformas que todos reconhecemos necessárias. Portanto, uma coisa é querer fazer o que se disse e bem outra é poder fazê-lo.
Governar é espinhoso, mas bem que poderia ser menos desagradável para FHC, se os aliados se comportassem como tal, não exigindo tantos sacrifícios em troca do apoio que lhe rendem. O presidente já foi acusado de omisso por negar-se a bancar o juiz na disputa entre aliados, cada lado pretendendo, naturalmente, que o ‘‘juiz’’ condene apenas os erros da outra parte, pois os ilícitos dos outros são sempre muito maiores do que os próprios, vez que é mais fácil enxergar um graveto no olho do adversário do que um tronco no próprio olho.
Considerando a dependência que o presidente tem do Congresso para processar as reformas necessárias à modernização e considerando as dificuldades que tem encontrado para aprová-las, pareceria que a sociedade equivocou-se na escolha de um bom número de políticos, mais preocupados consigo mesmos do que com os destinos do País. A presença de delinquentes no Congresso deve ser encarada como natural – vez que o Congresso é uma amostra fiel da sociedade – mas é inaceitável que essa bancada podre seja maior do que a parcela que ela representa na sociedade.
Para que o Brasil concretize o eterno sonho de ser o país do futuro, precisa começar a ser mudado agora; um trabalho lento e paciente, que começa por uma melhor educação e conscientização das nossas crianças. Enquanto essa nova geração não chega, é nosso dever oferecer ao próximo mandatário da Nação uma maior representação de bons políticos, deixando sem mandato e aos cuidados da Justiça notórios cafajestes, que têm buscado e, muitos vezes encontrado no Parlamento, a impunidade para seus delitos. FHC vai lidando com o desagradável, na esperança de evitar o desastroso para o Brasil.
A propósito da CPI da Corrupção, a quem ela interessa mesmo? Partindo de onde partiu, ela tem endereço e objetivo bem definidos: FHC e o enfraquecimento do seu governo, o que fortaleceria os políticos adversários, aplainando seus caminhos para as próximas eleições presidenciais ou melhorando o seu prestígio junto aos respectivos redutos eleitorais. Se a intenção dos propositores da CPI fosse séria, por que investigar uma lista tão extensa de denúncias, quando se sabe que investigar tudo é o mesmo que investigar nada?
- AMÉLIO DALL’AGNOL é engenheiro agrônomo em Londrina
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