EM DEFESA DA NATUREZA Sustentabilidade em alto-mar
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de março de 2011
Micaela Orikasa <br> Reportagem Local 
O navegador paulista Amyr Klink, de 56 anos, é famoso por suas expedições marítimas, empreendidas geralmente de forma solitária. No currículo dele, constam 35 viagens à Antártica e uma volta ao mundo, entre outras jornadas.
Conhecido pelo espírito de aventura, esse economista também projeta e constrói embarcações tanto para uso próprio quanto para clientes. Para ele, tão importante quanto a qualidade e o desempenho dos barcos, é a preocupação com a sustentabilidade presente em todo o processo, desde a construção até as expedições propriamente ditas.
Nesta entrevista exclusiva à FOLHA, Amyr Klink relata um pouco de sua experiência em expedições ao redor do mundo, dá exemplos de como é possível ser ambientalmente responsável mesmo em alto-mar e critica o hábito do brasileiro de desperdiçar água e energia. ''Gosto de oferecer a solução para os meus clientes. Muitas vezes ele quer um desperdiçador de água. Sempre defendo minha ideia, pois não é preciso abrir mão do conforto para fazer um bom uso da água e de energia'', ressalta.
Suas viagens experimentais têm o objetivo de mostrar que é possível usar novos conceitos e técnicas na construção de barcos. Mas como fazer isso sem agredir o meio ambiente?
Nós temos feito operações cada vez mais ousadas na Antártica e dessa vez conseguimos manter nosso barco operando durante um ano em uma estação antártica em regime privado. Foi uma ideia que surgiu há três anos, quando os operadores de algumas das bases britânicas não conseguiram manter o custo logístico, por razões econômicas. E nós conseguimos mostrar uma solução logística altamente funcional, confortável, com toda a tecnologia de comunicação, mas com um custo energético muito baixo.
Ter autonomia de todos os insumos (água, calor, energia e saneamento) dentro de uma embarcação, com custo acessível e de modo sustentável, é o que a gente sabe fazer e queremos propagar.
Como isso é possível?
Adotando medidas simples. Por exemplo, eu tenho nas embarcações tanques com medidores de água controlados. A gente controla as doses individuais de água, tanto para banho quanto para limpeza e para matar a sede. É por isso que nos barcos que faço não permito torneira elétrica. Outro prática é a pré-lavagem de roupa que fazemos com a água do mar. Utilizamos um mecanismo que lava, bate e amacia o tecido com um líquido degradável, que funciona em água salgada. Depois, é preciso só um enxágue com água doce.
Em suas viagens, qual tem sido a principal preocupação?
Eu dei duas voltas ao mundo sem nenhum reabastecimento. ''Fazer'' água é uma das questões de maior importância em nossas viagens. Pois como é possível ''fazer'' água se você depende de energia para isso? Nós poderíamos derreter neve ou até mesmo dessalinizar a água do mar, mas tudo isso requer um custo energético muito alto. E eu não gosto de usar dessalinizadores de osmose reversa, que é a tecnologia presente hoje em todas as embarcações. Para mim, nós emburrecemos nessa área, pois considero a osmose reversa uma tecnologia ruim, justamente pelo gasto de energia e combustível. Então, no nosso caso, optamos pela disciplina de consumo. Funciona muito bem.
Você chega a construir embarcações de R$ 30 milhões. Como atender esses cliente vips, sem abrir mão da preocupação com a sustentabilidade?
Quando o cliente pede torneiras elétricas, pois para ele é muito mais cômodo, eu apresento minhas ideias. Gosto de oferecer a solução para os meus clientes, pois na verdade o cliente é uma entidade meio polêmica porque muitas vezes ele quer um desperdiçador de água. Sempre defendo minha ideia, pois não é preciso abrir mão do conforto para fazer um bom uso da água e de energia.
E como essas ideias podem ser aplicadas no nosso dia a dia?
Bom, isso é uma outra questão, pois, além das pessoas não saberem fazer o uso correto, no Brasil não temos os equipamentos certos. Por exemplo, temos chuveiros com design maravilhoso, mas que são péssimos. Um chuveiro que solta 15 litros por minuto é uma ofensa. Gosto de tomar um banho confortável, mas por que não com a supressão fina, com a qual você gasta 1,2 litros por minuto? O efeito é o mesmo.
Defendo que não deveríamos ter um só tipo de água em cada casa. É inadmissível utilizar água potável para lavar o cachorro, a calçada e o carro. Isso deveria ser imposto nas normas de construção. Para mim, essa é só uma questão de mostrarmos a viabilidade, depois normatizar e impor ao usuário final. Mas ao mesmo tempo que é uma solução, é um grande problema, pois o nosso principal erro em relação ao consumo consciente e sustentabilidade é na esfera da fiscalização e do estímulo econômico.
Em suas viagens, quais consequência do aquecimento global mais chamaram sua atenção?
Vi um monte de coisas que prefiro não classificar, pois convivo com a elite científica que pensa esse assunto no mundo, mas que não está de acordo entre si. Mas em 25 anos, que é um micronésimo de tempo, e não permite nenhuma implicação séria sobre esse assunto, posso citar uma mudança na ação ultravioleta. Há 15 anos, na Antártica, eu tomava banho de sol pelado, pois o ar de lá é seco, não tem vento e você não sente o frio. Nunca usei protetor solar. De uns dez anos para cá, se não usarmos o protetor vamos ter queimaduras gravíssimas. Então uma das coisas que me impressionou mais, além das questões de aquecimento, é a ação ultravioleta, uma vez que na Antártica a projeção da falta da camada de ozônio é maior.
Qual será sua próxima viagem?
Não planejo mais. Simplesmente viajo. Mas no ano que vem pretendo trabalhar mais no Ártico e quero ficar mais tempo ao longo do Brasil também.


