Uma história de vida de lutas e conquistas Nos seus 91 anos, o padre italiano Angelo Pansa sempre esteve envolvido com questões sociais Disposição nunca faltou para o religioso, que atua nos mais diversos campos de interesse Lidera campanha contra o uso abusivo de agrotóxicos ao mesmo tempo que defende os direitos dos povos indígenas Para ele, envolver-se nas mais diversas questões sociais é obrigação dos religiosos ''A primeira coisa que um padre tem que fazer é compartilhar com os demais a situação existencial do povo com o qual convive'', argumenta
Nesta entrevista, o padre Angelo Pansa, que ocupa o cargo de delegado da Fundação Corte Internacional do Meio Ambiente (Icef), alerta para os riscos do uso de defensivos altamente tóxicos, que são fáceis de ser adquiridos e potencialmente perigosos ''Os efeitos são semelhantes aos do (herbicida e desfolhante) 'agente laranja', que foi utilizado na Guerra do Vietnã E o Paraná utiliza esses agrotóxicos contaminantes'', alerta
Por que o senhor engajou-se na luta contra o uso abusivo de agrotóxicos?
O problema é que os efeitos de determinados agrotóxicos são semelhantes aos do ''agente laranja'', que foi utilizado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã São produtos altamente tóxicos, cancerígenos e que se transmitem geneticamente, que representam grande risco para a população
E o que está sendo feito para evitar o uso desses produtos?
Infelizmente o poder público não se importou com as denúncias que fiz em 2007, nas quais alertava sobre o grande risco do Brasil estar exportando alimentos contaminados Depois dos requerimentos que apresentei em junho e setembro deste ano em Brasília e em Fortaleza, o Ministério Público Federal começou a investigar e encontrou inúmeras irregularidades a respeito de um determinado herbicida No exterior há laboratórios especializados que estão aguardando o envio das amostras destes produtos assim como amostras dos solos e águas contaminadas pelos agrotóxicos
Além da preocupação com o danos provocados pelos agrotóxicos, quais são suas outras bandeiras?
Fui enviado para as missões do ex-Congo Belga (hoje República Democrática do Congo) em 1958 e sempre fui envolvido com as questões sociais Elas fazem parte do meu testemunho de vida Minhas maiores lutas foram na África, tentando ajudar o povo africano a sobreviver e a viver em paz Uma paz que era constantemente ameaçada pelos movimentos revolucionários e pelos maus governos Centenas de missionários perderam a vida nestas lutas e o povo congolês foi quem pagou mais caro, sendo massacrado pelos rebeldes e pelo exército regular
Quais momentos o senhor considera os mais marcantes?
O resgate de centenas de missionários reféns dos rebeldes congoleses nos anos de 1965 e 1967 no ex-Congo Belga Os esforços para recolocar em situações de sobrevivência milhares de congoleses vítimas de injustiças e agressões, especialmente crianças e idosos Na Amazônia também vivi momentos marcantes, como os esforços para garantir aos povos indígenas o direito à vida, ajudando-os a se tornar autônomos quanto à alimentação, à saúde, à educação
E como o senhor avalia a atual situação dos povos indígenas no País?
Os povos indígenas ainda estão aguardando a efetiva demarcação, regularização e homologação de seus territórios Como exemplo cito a área indígena situada no Norte do Mato Grosso, onde o povo Xavante está em pé de guerra
O senhor afirma que a função do padre não deve se restringir a celebrar missas Quais são as outras atribuições relevantes de um sacerdote?
Acredito que a primeira coisa que um padre tem que fazer é compartilhar com os demais a situação existencial do povo com o qual convive Em poucas palavras: o padre deve ser o reflexo da presença de Jesus na atualidade, vivendo e agindo como Ele faria em situações semelhantes Quero continuar me esforçando para cumprir o meu dever, que considero minha missão de vida

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