Em defesa da crítica João Tescaro Júnior
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de agosto de 2010
João Tescaro Júnior 
Muitas vezes se ouve dizer que uma crítica só tem legitimidade se ela estiver, prévia ou posteriormente, vinculada a uma ação concreta do crítico no corpo social. Para os defensores dessas posições, só se pode criticar os atos públicos de um político desonesto ou uma ação política equivocada, se estivermos diretamente comprometidos com alguma atitude política na esfera social que objetive afastar os desacertos públicos dos nossos representantes. Embora respeite essa tese, discordo de suas razões por alguns motivos que reputo importantes.
Primeiramente, observa-se que o próprio discurso crítico já é uma ação geradora de efeitos no mundo social concreto. Nesse sentido, a filosofia da linguagem contemporânea, analisando os muitos equívocos linguísticos da tradição ocidental, tem entendido que todo enunciado linguístico é performativo, ou seja, além de descrever fatos e coisas do mundo, realiza ações, produzindo efeitos concretos no seu entorno. Desse modo, é possível afirmar que as ações críticas, que nascem nos espaços públicos e privados comunicativamente informais, de alguma forma influenciam e pressionam o poder político organizado que, percebendo a insatisfação, procura corrigir os desvios governamentais e atender as demandas sociais.
Ou seja, as críticas feitas informalmente nas ruas, nos lares e nos botecos da vida tornam-se cada vez mais organizadas, fortes, esclarecidas e esclarecedoras na medida em que alguns atores sociais destacam-se levando denúncias críticas à mídia e a sociedade civil organiza-se em sindicatos, associações e ONGs transformando as críticas em plataformas bem estruturadas de reivindicações sociais. Nesse sentido, ilustrativo é o discurso de Péricles, diante dos túmulos de soldados atenienses mortos na Guerra do Peloponeso, quando diz que os cidadãos atenienses se esforçavam, ao menos, para compreender as questões públicas ''na crença de que não é o debate que é empecilho à ação, e sim o fato de não se estar esclarecido pelo debate antes de chegar a hora da ação''.
Aliás, não é excessivo lembrar que muitas conquistas sociais como a ampliação dos direitos femininos, a igualdade racial dos negros norte-americanos e a recente Lei Ficha Limpa não nasceram de ações concretas e organizadas ''dos que fazem'', mas sim das críticas dispersas e desarranjadas no corpo social. Portanto, a crítica que se faz nos espaços públicos e privados desorganizados e informais é a força motriz dos avanços sociais ou, como entendeu Górgias, ''o discurso é um grande soberano, que com o mais diminuto e aparente corpo as mais divinas obras executa''.
Além disso, exigir que as pessoas participem, efetivamente, com ações concretas na esfera pública política para poderem ter o direito de criticar, apresenta-se como algo extremante idealizado, elitizado e segregacionista. Pense-se na escassez de tempo daquela pessoa que inicia a sua jornada de trabalho de madrugada e retorna à sua casa tarde da noite para conseguir, muitas vezes, somente o que comer.
Pense-se naquela pessoa adoentada que não pode sair de uma cama, dispondo apenas da fala para agir. Pense-se, ainda, naqueles escravos que não podiam praticar qualquer ação concreta sem a autorização do seu senhor. Tirar dessas pessoas o direito de criticar, afirmando que suas críticas só seriam legítimas quando vinculadas às ações concretas, faria de nós pequenos ditadores do cotidiano.
JOÃO TESCARO JÚNIOR é advogado em Londrina


