Em busca do sonho, o céu é mesmo o limite
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domingo, 13 de maio de 2007
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
Apaixonados por vôo. Assim se definem os profissionais que trabalham com aviação, setor que vem crescendo nos últimos anos apesar da crise após o acidente com o avião da Gol, que vitimou 154 pessoas em setembro do ano passado, na Serra do Cachimbo, região norte de Mato Grosso. A tragédia do choque com o jato Legacy levantou a discussão sobre as deficiências do setor aéreo no país.
No final de abril, São Paulo sediou o 2º Fórum para o Desenvolvimento da Aviação Civil. Entre os vários problemas discutidos, a falta de recursos humanos ganhou destaque. ''Ficou claro que vai faltar piloto. A aviação tem uma taxa de crescimento de 4% a 6% ao ano, e o número de pilotos existentes não vai atender a demanda'', observa o coordenador do curso de Ciências Aeronáuticas da Unopar, Humberto Sérgio Cavalcante Marcolino.
Mas não é só de pilotos que o mercado da aviação está carente. Segundo Marcolino, também faltam professores especializados nos cursos superiores, comissários de vôo, técnicos de manutenção e despachantes operacionais, responsáveis pelas escalas de vôos nas companhias aéreas. Isto sem falar nos controladores, pivôs da crise no setor.
''O problema começou a ser diagnosticado há 15 anos, mas não foi dada a devida atenção. Não foram formados novos controladores, e isso só ficou evidenciado após o acidente da Gol. Foi tudo consequência dos sucessivos cortes de investimentos por parte do governo, que acabaram denegrindo uma imagem de 60 anos de bons serviços prestados pela aviação brasileira'', avalia o coordenador.
''São poucos profissionais para muita responsabilidade. A falta de controladores acaba restringindo o número de vôos por questão de segurança, para não sobrecarregar os funcionários'', complementa o professor André Luiz Moreira Peterlini. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) exige um curso específico para formação de controladores de vôo, o que acaba retardando a entrada destes profissionais no mercado.
Para ser piloto, a Anac exige curso superior e ainda que o aluno complete horas de vôo com instrutores para cada categoria (leia arte ao lado). É aí que o aspirante a piloto enfrenta a maior dificuldade: a falta de recursos. As horas/vôo custam entre R$ 200 e R$ 360, dependendo da aeronave. De acordo com Cleber Roma, instrutor do Aeroclube de Londrina, para se formar piloto comercial, o que exige pelo menos 150 horas de vôo, o aluno gasta cerca de R$ 40 mil.
Remuneração - Se o investimento é alto, o retorno é compensador. Os salários de pilotos variam de R$ 1,5 mil para instrutores, pilotos de táxi-aéreo, e podem chegar a R$ 20 mil para pilotos de grandes companhias aéreas. Outro filão do mercado é a agricultura, em que pilotos de aviões de pulverização ganham até R$ 60 mil por safra.
O estudante João Messias Muzardo Júnior teve que adiar o sonho de ser piloto por dificuldades financeiras. Ele entrou na primeira turma do curso da Unopar em 2000, trancou a matrícula no primeiro ano e só conseguiu voltar agora.
''Já fiz de tudo. Tentei cursar educação física, fui técnico em segurança do trabalho, bombeiro civil e estou trabalhando atualmente como agente penitenciário. Só agora consegui retomar meu sonho. Às vezes trabalho de madrugada e venho direto para faculdade, mas venho feliz porque estou fazendo o que gosto'', afirma o estudante, que já é piloto privado.
Passado o aperto nas contas e realizado o sonho de se formar piloto, o profissional tem que contar com a paixão pela arte de pilotar para superar outro obstáculo: a saudade da família.
''A profissão afasta do convívio familiar. O piloto está sempre viajando, mas como o avião é um transporte rápido, consegue voltar para casa com frequência'', garante o professor Peterlini.
Mas ele lembra o lado positivo da profissão. ''O bom é a ausência de rotina, porque um vôo nunca é igual ao outro. É possível conhecer vários lugares, passar por emoções sempre diferentes''.


