No princípio, era o futebol. Tempos depois surgiram os volantes de contenção e foi o que bastou para a arte de jogar bola ser esquecida no vestiário. Antes disto acontecer, os times atuavam com um zagueiro central e dois laterais. Vai daí que algum técnico alemão, ou, quem sabe, inglês, cansado de ver sua equipe ser envolvida pelos ataques – cinco atacantes, é mole? –, entre uma caneca de cerveja e outra, resolveu criar o quarto-zagueiro. Sai de cena o 3-2-5 e o 4-2-4 toma conta do planeta bola de futebol, a arte improvável de se conduzir uma pelota de couro em um retângulo gamado utilizando-se os pés. Foot: pé; ball: bola.
Vez por outra, porém, aparece um time, uma seleção, que teima em tentar jogar o chamado futebol-arte. Dizem os antigos que em 1954 houve uma seleção húngara que destroçava adversários com a simplicidade de quem chupa uma laranja. Perdeu a final para os metodológicos alemães e o futebol-arte sofreu seu primeiro baque. Quatro anos depois, porém, o mundo conheceu a seleção canarinho do Brasil. Aí não teve jeito. O mundo rendeu-se ao talento, finalmente. Nilton Santos, Didi, Garrincha e Pelé. Os deuses da bola. Em 1962 o bis. Sem Pelé, mas com Amarildo em grande fase e Garrincha fazendo o de sempre – divertindo-se com a bola nos pés: Brasil bi-campeão.
‘‘...quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?’’, pergunta o historiador Eric Hobsbawn em seu livro ‘‘Era dos extremos – O breve século XX – 1914-1991 ’’, ao analisar a contribuição do século passado no que se refere à cultura popular. O tricampeonato conquistado em 1970 no México, certamente, muito contribuiu para o Brasil entrar, definitivamente, para a seleta galeria dos cultuadores do futebol-arte. Em 1974 o encantamento dos apaixonados pelo futebol jogado esteticamente ficou por conta do ‘‘carrossel holandês’’. Que, também, perdeu a final para a mecânica Alemanha.
Oito anos depois, na Espanha, em 1982, novamente o Brasil dá um show de bola. Joga para vencer, mas joga bonito. A bola, parecendo recordar-se de sua origem bovina, rola; ora preguiçosa, ora esperta, mas sempre em toques precisos, pelos gramados da terra de Miguel de Cervantes, o criador do visionário Dom Quixote de La Mancha. Que pena. A defensiva Itália eliminou o Brasil antes que o futebol-arte proposto por Telê Santana chegasse às finais e sagrou-se tricampeã. Em 1986, no México, a arte de um solista Maradona concedeu à Argentina, desta vez de forma legítima, seu segundo título mundial. Em 1990, nada de novo no front. Deu Alemanha.
Na primeira Copa do Mundo disputada no país – EUA – em que o esporte predileto utiliza uma bola (?) oval, em 1994, deu Brasil tetra-campeão. Sem brilho. Jogando apenas para o gasto e visando unicamente o resultado. Em 1998, o mistério. Aquela final entre a anfitriã França e o Brasil somente será esclarecida se algum dos seus protagonistas, um dia, resolver contar o que de fato aconteceu. De qualquer forma, a final de Paris, cidade onde o escritor argelino Albert Camus, goleiro em seus tempos de juventude, criou obras de arte da literatura, em nada contribuiu para que o futebol-arte, o futebol dotado de senso estético, fosse resgatado.
Na virada do milênio, com a politicagem e a corrupção cada vez mais ditando as regras do jogo de futebol, a Copa foi parar do outro lado do planeta. Japão e Coréia do Sul, até o Osama Bin Laden deve estar sabendo, sediam a Copa que termina neste domingo. De um lado a tricampeã Alemanha com seus jogadores de sangue mais frio do que bacalhau pescado nos mares nórdicos. Do outro lado o tetra-campeão Brasil, com sua ginga, sua malemolência e o sangue latino, árabe, afro-tupi-asiático... a correr-lhe, escaldante, pelas veias. Deste embate poderá emergir o futebol que o planeta pode e deverá jogar nos milênios que virão. Que vença o talento. Brasil pentacampeão!
MARIO FRAGOSO é jornalista em Londrina

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