A discussão que permeou a campanha eleitoral deste ano voltou à tona com o anúncio de uma equipe inteiramente masculina para a transição entre os governos. A representatividade feminina nos cargos de gestão não deverá ser assistida pelo presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) pelo retrovisor. A demanda das mulheres por presença e protagonismo nas decisões nos mais alto escalão do poder ao lado dos homens deverá atravessar as próximas semanas correndo sérios riscos não avançar seriamente até 2022.

Foi neste contexto que a especialista em segurança pública Márcia Amarílio da Cunha Silva, tenente-coronel do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, foi anunciada. E em seguida mais três nomes (sem muitos detalhes sobre as respectivas funções): Liane de Moura Fernandes, ex-tenente do Exército e formada em engenharia ambiental pela UFT; Sílvia Nobre Waiãpi, tenente do Exército, a 1ª militar indígena a integrar as Forças Armadas; e a doutora em Economia pela PUC-Rio, Clarissa Costalonga e Gandour.

Pressionado pelos jornalistas sobre mulheres nos ministérios, Bolsonaro titubeou antes de dizer que "com certeza" nomes femininos surgiriam para alguns dos dez ou 12 ainda não anunciados. Já sobre os que estão definidos questionou. "É o caso tirar um desses e colocar uma mulher no lugar dele só porque é mulher?"

Para a Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo com pós-doutorado na linha de Comunicação Política, Luciana Panke, devem prevalecer os aspectos qualitativos sobre os quantitativos nesta busca por representatividade. Foi sob este viés que atual diretora de Comunicação Institucional e Marketing da UFPR publicou a sua tese de pós-doutorado pela Universidade Autônoma Metropolitana do México, onde entrevistou mulheres que ocupavam cargos de gestão pública e consultores políticos de 15 países da América Latina e analisou uma década de programas eleitorais destas candidatas.

Em entrevista à FOLHA, ela analisa a posição que ocupa o Brasil no ranking de países onde há maior equidade de gêneros na política, a recente eleição nos Estados Unidos e as medidas tomadas por Jair Bolsonaro.

Que lugar o Brasil ocupa no ranking de países com maior equidade de gênero na política e quais os fatores internos dessa realidade?

"O Brasil é um dos países com menor representatividade dentre toda a América Latina. Os dados mudaram um pouco agora com esta eleição, aumentou um pouco, mas o Brasil segue entre os últimos lugares. No momento da pesquisa, ele apenas perdia para Belize e para o Haiti porque a nossa Câmara dos Deputados não chegava a 10% de representação, agora já está com 15%, e no Senado também o número é muito baixo. E também no caso do Executivo, que não se tem um hábito aqui de se eleger prefeita ou governadoras, não existe uma cultura política do brasileiro e latino para apoiar a mulher na gestão pública. É mais comum vermos homens e observarmos comentários. 'Ah primeira mulher na reitoria da tal lugar, ou diretoria de uma empresa ou então mesmo no governo'. Existe uma admiração como se aquele lugar não fosse de pertencimento natural e isso se reflete em toda a América Latina em especial nos cargos do Executivo. No Legislativo como muitas vezes há uma bandeira de defesa de alguma causa, ela entra para legislar, então ela tem um outro tipo de público que vê com um pouquinho mais de naturalidade. Ainda assim estamos com pouco mais de 15% na Câmara Federal de representação feminina."

Como se dá hoje no mundo a relação entre representatividade feminina na política e corrupção?

"Em relação a este tema específico temos que ter um cuidado bem grande porque existe na raiz cultural na qual se impõe para a mulher aspectos de 'santidade'. Isso está diretamente ligado as nossas raízes de formação cultural que significa, por exemplo, que a mulher não seria corrupta, ou ela não é assassina ou não comete certos crimes muito relacionados ao masculino. Isso por um lado existem estudos que mostram realmente na Europa, isso se mostrou que um País governado por mulher é um País menos corrupto, entretanto não podemos colocar isso como o total porque corrupção, realmente, não tem gênero, assim como a honestidade. Não se pode fazer uma relação direta porque essas são qualidades humanas o que podemos afirmar neste sentido é que existe uma cobrança duplicada com a relação a uma mulher do que a um homem. Se nós formos observar a qualificação profissional destas mulheres que estão nas gestões em geral é muito superior que a dos homens em termos de graduação, mestrado e doutorado. É mais exigido dela esta qualificação do que deles justamente porque não se está habituado com a presença da mulher em cargos de gestão. Este hábito faz com que a mulher tenha mais atenção, cuidado, mais rigor nas suas gestões porque as críticas com relação a mulher estar nestes lugares que culturalmente não lhe pertence são mais duras."

O que as eleições para o Congresso dos Estados Unidos mostram e o que o Brasil pode aprender com o países que estão mais avançados?

"Acho que não podemos considerar os Estados Unidos como um País avançado em relação a representação de gênero porque lá é tão conservador quanto aqui. O que teve nesta eleição especial foi, na verdade, uma rejeição ao governo de direita do Donald Trump. Então vimos uma movimentação social, uma resposta a políticas dele de exclusão, preconceito e de exaustão da média e baixa. Então houve toda esta mobilização no sentido de que aumentou o número de mulheres, inclusive mulheres negras, muçulmanas, latinas que antes não tinham essa voz. Então nesse caso específico foi uma resposta porque antes a entrada, por exemplo, de mulheres na Suprema Côrte ou mesmo no Congresso também era tão limitada quanto aqui. Uma das minhas entrevistadas nesta pesquisa foi uma candidata presidencial mexicana nas eleições de 2012 chamada Josefina Vázquez Mota. E nessa entrevista estávamos conversando sobre quais são estas dificuldades que as mulheres têm e ela comentou que num evento onde estavam outras líderes mundiais, dentre elas a Michelle Bachelet e a Hillary Clinton. A própria Hillary comentou que o mais difícil para ela na política era o fato de ser mulher. Veja, pelo sistema eleitoral dos Estados Unidos quem foi eleito foi Trump, mas foi ela quem teve mais voto popular. Inclusive a apresentação do perfil dela no Twitter está escrito 'esposa, mãe, avó' e depois a qualificação profissional. Por que ela tem essa necessidade de falar os papéis familiares e não os profissionais? Porque há uma exigência da sociedade em relação a isso, que é essa dificuldade da mulher de estar no cargo público, porque supostamente o sucesso feminino está ligado ao sucesso nessas relações e não com a sua profissão. Para o homem é o contrário. É cobrado que o sucesso é estar bem posicionado profissionalmente e a cobrança sobre sua vida pessoal não é tão grande. Considero um fato à parte mas espero de que agora em diante impulsione a inserção mais qualitativa das mulheres na política. Agora em outros países como Noruega, Dinamarca e Finlândia, esses sim respeitam mais a equidade de gênero e vêm com naturalidade a presença da mulher em todos estes cargos como em qualquer outra parte."

Qual a sua avaliação sobre esta semana e como melhorar a qualidade do debate para que não continue sendo, em 2019, um assunto tratado muitas vezes de forma leviana?

"O Brasil tem, infelizmente, um histórico de uma cultura bastante machista no sentido de se ver como natural observarmos aquelas fotos antigas com infinitos homens engravatados em reuniões de negócios ou de representação, como OAB, assim como na política. Quando assumiu o Temer já começamos a ver isso nos Ministérios, a saída de praticamente todas as mulheres e todas as reuniões apenas com homens brancos de meia idade, os tradicionais da política. O que o Presidente eleito fez agora nessa transição simplesmente reflete esta cultura na qual é o homem quem manda. A postura dele nos seus discursos no decorrer de sua carreira política já demonstram qual a consideração que ele tem em relação a mulher e isso ficou simplesmente muito coerente agora na transição em relação ao que ele pensa do papel feminino. O que significa isso, que em diversas vezes ele reforçou a necessidade de ter um governo militar e um governo no qual as mulheres não participam. Portanto não me admira esse retrocesso de termos apenas militares e homens com essa faixa etária e o fato dele chamar algumas mulheres agora me indica que ele está colocando algumas para, digamos, silenciar a opinião pública e não que essas mulheres, de fato, tenham uma participação qualitativa. Existe uma expressão que é usada e é bastante forte aqui na América Latina que diz que as mulheres são chamadas na política para "enfeitar a cerimônia", é como o discurso do politicamente correto, então vamos colocar algumas mulheres para ninguém nos incomodar ou se queixar em relação a nossa postura. A impressão que me deu foi essa e até o fato dele ter chamado militares também reflete o ponto de vista dele."

A representatividade só vai aumentar quando as mulheres ganharem mais espaço nas diretorias dos partidos?

"Um dos principais desafios das mulheres é terem visibilidade dentro dos partidos. É um ponto extremamente importante porque se formos observar a maioria dos partidos existe uma quantidade semelhante de homens e mulheres. São poucos os partidos que têm mais homens que mulheres. Se não me engano o Partido Novo que tem 70% de homens, agora os demais existe um equilíbrio em relação ao gênero. Mas o que acontece dentro dos partidos, as mulheres estão lá. Elas participam, estão filiadas, participam de atividades mas muitas vezes nos bastidores que faz com que elas executem tarefas mas não "saiam na foto", não são visíveis. Elas sim deveriam começar a participar porque a partir do momento que elas estão nas diretorias, nas comissões, nas presidências destes partidos, elas conseguem ter mais visibilidade interna e mais apoio para as eleições, porque não adianta ter cotas numéricas e estes partidos não apoiarem estas mulheres nas suas campanhas. E isso significa não apenas a capacitação, como a própria campanha eleitoral, como a articulação de alianças com outros partidos para que fortaleçam as suas mulheres. Se os partidos não estão preparados para apoiar estas mulheres e empoderá-las, dar espaço de voz, é muito difícil que elas consigam fazer isso fora dos partidos. Várias das entrevistadas do meu livro inclusive trocaram de partidos exatamente por este boicote interno e antes quando eu fiz a análise da transição do Presidente eleito, eu gostaria de reiterar uma questão relacionada a este ponto. Não adiante ter uma presença quantitativa e não ter uma presença qualitativa, porque a representação meramente numérica, não significa uma representação opinativa. E isso significa participar das reuniões das comissões, que muitas vezes são feitas em horários que a mulher não pode participar pela cobrança das suas atribuições familiares. Se formos observar o evento realizado pela comemoração dos 30 anos da Constituição Brasileira ali na mesa do Congresso só tinha homens."

Mais alguma consideração?

"Uma questão muito importante é que estas mulheres que sintam este talento para a atividade pública que elas não se intimidem pela pressão social. Uma das questões que eu observo é que esta intimidação oriunda, por exemplo, de críticas pessoais. Vimos as que a Manuela D'ávila recebia e mesmo as outras candidatas a Presidência, o tipo de cobrança que elas recebem, as críticas pejorativas que são muito fortes. Então essas mulheres precisam estar muito fortalecidas e não intimidadas para estarem na política. Me chamou muito atenção quando estive na Bolívia para uma palestra. A Bolívia é o País da América Latina com mais mulheres na política, tem 52% de mulheres na Câmara. Entretanto quando me refiro a presença qualitativa, lá não existe. Eu fiquei até curiosa por que queriam que eu falasse sobre isso já que haviam chegado ao "sonho" que aqui o Brasil e vários outros países gostariam de alcançar. Mas eles precisavam justamente de uma palestra que fizesse a reflexão sobre isso porque essas mulheres sofrem feminicídio político. Elas são caladas de várias maneiras, coagidas e ridicularizadas. Eu creio que estes são pontos que dependem não apenas da mulher, mas de toda a sociedade. Essa presença de mulheres na política reflete essa lógica da democracia representativa portanto que levamos a sério isso, que é importante essa pluralidade de vozes e não apenas dessa voz que nós ouvimos aqui no Brasil que é desse homem, hétero, branco e de idade média já vimos no que deu, então precisamos oportunizar a participação de outras vozes qualitativamente na política."

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