Em busca de novos avanços na saúde
Em busca de novos avanços na saúde
Célia Regina Rodrigues Gil
e João José Batista de Campos
A cidade de Londrina tem a sua história no setor público de saúde marcada por conquistas e avanços significativos na formulação e execução de políticas sociais. Durante muitos anos, suas propostas de organização dos serviços e de implementação de novas práticas fizeram com que o município se destacasse em âmbito nacional no que se refere à prestação de serviços, comprometimento dos dirigentes com a efetividade dos serviços públicos, mobilização das equipes locais com a qualidade da assistência prestada e participação da população nas discussões e definições dos rumos da saúde no município.
Este conjunto de fatores resultou no enfrentamento de inúmeros problemas políticos, financeiros, sociais, culturais, entre outros, que conseguiram ser superados ao longo dos anos e contribuíram para a consolidação de uma ampla rede municipal de serviços de saúde.
Nos últimos anos, entretanto, Londrina vem apresentando sinais e sintomas de uma proposta em decadência, em parte, fruto do esgotamento do atual modelo de organização dos serviços de saúde.
No mundo todo, os segmentos mais comprometidos com as questões sociais têm colocado o papel das políticas públicas como um diferencial importante para a distribuição mais equitativa de bens e serviços à população. Neste sentido, o papel do setor público passa a ser objeto de preocupação e reflexão constante, uma vez que é através dele que os governos disponibilizam e prestam os serviços ditos essenciais.
É neste contexto que vem crescendo a adesão de muitos municípios à diretriz de intersetorialidade. Esta proposta, em última instância, questiona os atuais paradigmas de organização dos serviços públicos e propõe a articulação entre os diferentes setores, visando à otimização dos recursos, à efetividade e à qualidade dos serviços.
Na área da saúde, esta diretriz é conhecida como Cidades Saudáveis ou Municípios Saudáveis, e traz como lógica de organização dos serviços a visão do paciente enquanto cidadão, enquanto um ser que mora em algum lugar, que tem alguma ocupação, que tem uma família, que tem relações com o mundo e com a comunidade na qual está inserido. Nesta visão, este paciente deixa de ser um caso, um doente do fígado ou do pulmão, e passa a ser uma pessoa que, independente de suas condições socioeconômicas
e culturais, merece ser tratado com respeito e dignidade.
Neste sentido, algumas iniciativas vêm sendo desenvolvidas por muitos municípios do Estado e do País visando construir, gradativamente, uma nova orientação para as atuais práticas de saúde. Lamentavelmente, nenhuma delas adotada por Londrina.
Este é o caso do Programa Saúde da Família (PSF). Esta estratégia de organização dos serviços está demonstrando, nas cidades onde foi implantada de fato, a capacidade de aumentar a resolutividade dos serviços, diminuir a procura por serviços hospitalares e promover a melhoria nos indicadores de saúde. Da mesma forma, está provocando mudanças importantes na relação entre médico e paciente, médico e equipe de saúde e equipe e população atendida, aumentando a satisfação da população e dos profissionais quanto aos serviços prestados. Tem também fixado os profissionais de saúde na rede pública, pois remunera melhor e dá melhores condições para o desenvolvimento do trabalho em equipe.
Em Londrina, esta modalidade de serviços ficou restrita a apenas quatro equipes presentes na zona rural, que nunca atuaram plenamente por falta de condições adequadas para a execução do trabalho. Com isso, tornou-se um serviço sem expressão e força para demonstrar o potencial de mudança que poderia produzir em nossa cidade.
Este é um dos aspectos que serão debatidos nos próximos dias 28 e 29, durante o 1º Congresso Paranaense de Saúde Coletiva e a 1ª Mostra Regional de Saúde da Família, em Londrina. Este evento, promovido pelo Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva (Nesco), Centro de Ciências da Saúde e Secretaria Estadual de Saúde do Paraná, promete revitalizar o debate acerca das proposições e rumos da política municipal de saúde visando futuras rearticulações na oferta de serviços.
É importante abrir este debate à população londrinense, para que ela conheça outras alternativas para o uso dos recursos públicos em saúde e que são substancialmente diferentes das que vemos noticiadas nos jornais diariamente, correspondentes à visão ultrapassada de um modelo que só privilegia o aumento de leitos hospitalares, a construção de novos hospitais e pronto-socorros em detrimento de investimentos que visem, efetivamente, a melhoria da qualidade de vida e saúde da população.
- CÉLIA REGINA RODRIGUES GIL e JOÃO JOSÉ BATISTA DE CAMPOS são professores universitários em Londrina





