Em busca da popularidade
Um pacote para a construção civil, outro para a questão dos juros. O governo federal mostrou serviço durante a semana passada, em um esforço evidente no sentido de reverter a situação precária em que se encontra diante da opinião pública. Com efeito, os cada vez mais elevados índices de impopularidade do presidente (vale dizer do governo), ainda que ocorrendo no primeiro ano do mandato, são preocupantes, inclusive porque o presidente Fernando Henrique Cardoso está no seu segundo mandato. É uma situação diferente da vivenciada por outros chefes de Executivo, que assumiam o poder e enfrentavam as dificuldades naturais da adaptação ao poder. FHC não necessitava, em tese, deste ‘período de adaptação’. Mais ainda, a reeleição, outra vez sem a necessidade de um segundo turno, representava uma espécie de garantia de reconhecimento ao trabalho, o que deveria garantir pelo menos um começo seguro do novo mandato.
Muitos fatores contribuíram, porém, para esta situação. A desvalorização do real, promovida no começo do ano, pesou muito por ter causado uma imensa repercussão sobre toda a economia. No começo de um mandato, qualquer governo deve adotar medidas assim. Ocorre que FHC estava no comando há quatro anos. Poderia (e talvez deveria) ter promovido a desvalorização da moeda no final de 98. Para ponderável parcela do eleitorado, a impressão foi a de que preferiu postergar a decisão para evitar o eventual desgaste no pleito em que tentava o segundo mandato. Deste modo, a queda da popularidade pode representar, em ponderável parcela, um sentimento de desilusão diante de um governo que pode ter adiado medidas – que possivelmente eram necessárias – só por interesses eleitorais.
A desvalorização da moeda, a crise econômica que persiste, o desemprego, a perda de perspectivas no momento em que se esperava uma melhoria nas condições de vida da população, tais fatos por si foram suficientes para mudar o clima. Um governo consagrado nas urnas, em outubro, um ano depois se encontra em péssima situação perante o povo. Por mais pragmático que seja, o presidente sabe que precisa adotar medidas tentando restaurar principalmente a credibilidade oficial, o grande fator que o elegeu há quatro anos, o manteve em excelente situação no primeiro mandato e garantiu a reeleição tranquila. FHC não pode disputar um terceiro mandato, mas certamente pretende garantir seu lugar na História. E talvez até, como seu parceiro e amigo Carlos Menem, pense em voltar à presidência como sucessor de seu sucessor. E não se pode esquecer um outro plano, esboçado há algum tempo quando se falava na idéia de instaurar o parlamentarismo no Brasil, o que permitiria a manutenção por longos anos (como aconteceu com Margareth Thatcher na Grã-Bretanha) do primeiro-ministro Fernando Henrique Cardoso na chefia do governo.
Seja como for, o governo federal precisa reverter não só a impopularidade mas, e talvez principalmente, tem de produzir condições para que o País saia desta aparentemente interminável crise. O enfoque dos ‘pacotes’ da semana passada é interessante, até porque atinge dois segmentos importantes: a construção civil representa o setor que mais rapidamente pode criar empregos; a questão dos juros se situa no patamar mais crítico, porque o custo do dinheiro atualmente inviabiliza o investimento produtivo e dificulta a ação do comércio (e da indústria, por extensão). O que é preciso, porém, é que estas medidas sejam acompanhadas por outras e, em especial, por um trabalho sério para que a própria população deixe de vê-las como um truque e volte a confiar nos seus governantes.

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