Em briga de marido e mulher...
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de novembro de 1997
Cleide Madalena Cordeiro Camargo 
A impunidade perpetua a violência da qual a sociedade vem sendo cúmplice. Quantas vezes já ouvimos dizer, ou até mesmo já repetimos, o ditado: Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher.
A violência contra a mulher manifesta-se de diferentes formas, e seu significado varia de acordo com a cultura e o momento histórico no qual se insere. Estamos acostumados a relacionar violência contra a mulher a atos que provocam algum tipo de lesão corporal; porém esse pode não ser o mais grave. As ameaças, insultos, agressões verbais, constrangimento, opressão, presentes no cotidiano da mulher, a humilham e intimidam, causando-lhe sofrimento tal que põe em risco sua saúde mental.
Pesquisas demonstram que o lar é o espaço mais comum da violência, e que os agressores são em geral parentes próximos da vítima, a saber maridos ou companheiros, pais, tios e irmãos. Análises simplistas atribuem a violência doméstica a crises econômicas e ao consumo de drogas e álcool. Sabemos hoje que ela se dá nas diferentes camadas sociais e nem sempre relacionada a dependência química. Portanto sua explicação deve ser baseada nas relações de gênero, que definem os papéis, comportamentos e atitudes para homens e mulheres. Baseados na enganosa premissa da superioridade do gênero masculino, a violência contra a mulher tem sido perpetualizada.
Por razões econômicas, sociais, culturais, psicológicas e religiosas, a mulher tem dificuldade de sair dessa situação e acaba se tornando uma espécie de cúmplice do agressor, uma vez que não o denuncia. Além disso as pesquisas demonstram que filhos de lares violentos acabam reproduzindo o padrão a que estão acostumados, tornando-se os meninos outros agressores, e as meninas resignadas a serem agredidas.
O texto da cartilha nº 1 da série Violência de Gênero nos lembra que nos últimos anos o movimento de mulheres tem apresentado alternativas concretas contra a violência em todos os níveis. A violência doméstica, invisível e socialmente permitida, passa a ser inaceitável e punida, a determinação contra a mulher no trabalho passa a ser reconhecida como uma forma de violência e de reprodução da desigualdade. Esse reconhecimento tem levado as instituições públicas a criarem organismos que respondam com a devida seriedade a esse problemas.
Participar na mudança profunda da situação que vem sendo reproduzida a séculos implica em ações sérias e constantes num processo de reeducação e conscientização da população; no envolvimento de toda a sociedade nesse processo; e no comprometimento do poder público em promovê-lo.
Obs: Dia 25 de novembro é Dia Latino-Americano de Luta Contra a Violência à Mulher.


