Em águas turvas
Tudo o que conspira contra o fisiologismo é, neste momento, inconveniente aos propósitos políticos do governo. A luta pela reeleição e continuidade das reformas envolve profundo mergulho nas águas turvas do clientelismo. A chave do processo é a adesão do assim chamado baixo clero, a imensa maioria de parlamentares desconhecida do público. Aí começam os problemas.
O trânsito do governo não é bom nesse setor. Há queixas generalizadas. O governo teria, até aqui, privilegiado o diálogo com as lideranças, que nem sempre expressam a vontade e os interesses dos liderados. Mais: trata com desprezo os parlamentares.
São queixas de teor eminentemente utilitário, feitas sem o mais remoto constrangimento. É esse o jogo que está em curso. Os adversários do governo, que passaram estes dois anos desarticulados e sem assunto, despertaram do torpor e estão em cena. É hora de recuperar o tempo perdido. O governo está acuado por seus próprios aliados.
As denúncias contra o deputado Pedrinho Abrão (PTB-GO), feitas pelo ministro Gustavo Krause, deram o mote ao deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), que quer ressuscitar a CPI do Orçamento e está encontrando receptividade acima da imaginada. O senador Pedro Simon (PMDB-RS) tenta, desde o final da CPI dos Sete Anões, viabilizar o que considera a continuidade daquela: a CPI das Empreiteiras, que chama também de CPI dos Corruptores. Fracassou nas tentativas anteriores, mas está sendo estimulado a tentar de novo. O momento é favorável.
A iniciativa de Miro Teixeira está sendo recebida não exatamente como uma oportunidade de submeter o Legislativo a novo processo de faxina ética, mas de atrapalhar os planos e reeleição de Fernando Henrique. A lista dos parlamentares do PPB que devem ao Banco do Brasil é outro componente a excitar os ânimos e a estimular o ímpeto investigacionista da oposição. Tenta-se também uma CPI para o assunto.
No Senado, como se sabe, há a CPI dos Títulos Públicos, que envolve parlamentares, prefeitos e governadores. São casas de marimbondos, postas em cena no início do processo de negociação de votos para a aprovação da emenda da reeleição. O governo sabia que teria uma guerra pela frente. É possível que não a imaginasse tão problemática, mas o certo é que a confusão está apenas no início.
O deputado Pedrinho Abrão deve ser cassado ou induzido a renunciar. O empenho do ministro Luís Carlos Santos, que tem a incumbência de negociar votos na base parlamentar do governo, é no sentido de reduzir ao máximo os estragos políticos e rezar para que as festas de final de ano tenham efeito diluidor sobre a crise.
O Congresso não terá recesso, mas, em função de natal e Ano Novo, haverá pelo menos umas três semanas de inatividade. É com ela que o governo conta para rearrumar a casa e retomar a agenda política inicialmente programada. Não será fácil.





