De antemão, importante avisar o leitor que esse texto não pretende fazer uma retrospectiva, mas, sem deixar de olhar para o passado, observa-se os meses anteriores e o panorama brasileiro. 2016, após o complicado 2015, veio esperançoso e promissor: não faltavam, na virada de ano, pedidos de um ano melhor e uma confiança nos meses seguintes que, junto com a empolgação da época – que, queiramos ou não, mais serve para incentivar o encantamento com possíveis mudanças do que para torná-las eficazes – municiaram o brasileiro em direção a um ano novo que, minado na incerteza, talvez hoje possamos dizer, pouco tenha sido melhor que 2015.

Os problemas políticos e econômicos e seus reflexos no cotidiano brasileiro, além do aparecimento de algumas dificuldades outrora superadas e/ou amenizadas, como o desemprego, a desvalorização da moeda, o processo de impeachment e o retorno de um ambiente instável nas esferas governamentais colocaram em xeque o próprio brasileiro em sua posição de cidadão da pátria amada. A sensação de retorno ao status obsoleto aflorou os ânimos e, em alguns meses, nunca se teve tanta opinião sobre economia, política e sociedade.

Poderosamente, a internet e a facilidade de acesso à informação transformaram aquele brasileiro acomodado em um cidadão ativo. A expressão de opiniões sobre vários campos sociais apontou como o novo hobby do brasileiro, que passou a criticar, discutir e se preocupar, agora com mais veemência, com o país em que vive. O que Habermas chama de "esfera pública" apareceu como há muito não se tinha e, instrumentalizando a cidadania, aproximou, mesmo que timidamente, o brasileiro à coisa pública.

O fenômeno que vivemos não seria prejudicial se não viesse acompanhado de um sentimento de intolerância e incompreensão: no ímpeto de firmar determinada posição política, derivada, normalmente, do viés ideológico escolhido, os discursos brasileiros tornaram-se meios de agressão, em que a inflexibilidade com pensamento divergente e a insensibilidade para realidade de mundo daquele diferente tornaram-se episódios progressivamente recorrentes.

A sociedade inflou-se e as discussões, distanciando-se das preocupações comuns, direcionou-se, prioritariamente, para a imposição de um pensamento sobre outro com o fim de estabelecer uma hegemonia pensante, tanto de lá, como de cá. Rotineiras foram as circunstâncias – no Congresso Nacional, em postagens nas redes sociais, manifestações públicas e atos políticos, movimentos estudantis e grevistas, além de situações de menores proporções – em que a opinião alheia, quando não ignorada, era desmerecida e, num movimento de desprezo, silenciada por comportamentos até grotescos e descivilizados.

Tão importante para a concretização democrática, o debate político, atualmente, está desfigurado. Assim, os prejuízos são significativos e revelam a fragilidade da democracia brasileira e a imaturidade política do nosso povo, já que é nato do nosso regime a liberdade de opinião e a construção paulatina do Estado, mediante o diálogo. Aproveitando o dito popular "na terra de cego, quem tem um olho é rei", em 2016, marcado pela intransigência cidadã brasileira, os tolerantes foram reis. Em 2017 precisamos de mais reis assim, que os tenhamos!

LUCAS PAULO FERNANDES é estudante de Direito da Universidade Estadual de Londrina

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