Em 16 anos Justiça não decidiu caso Zélia
O povo talvez já houvesse esquecido da ministra Zélia Cardoso de Mello e do processo que a envolveu por denúncia de corrupção (ela foi condenada em primeira instância), e agora o Ministério Público Federal reativa a memória popular ao recorrer da decisão do Supremo Tribunal de Justiça que a absolvera. A então poderosa ministra da Fazenda do governo de Fernando Collor mudou-se para Miami algum tempo após deixar o mando, com a cassação do chefe, e este agora ocupa o cargo de senador pelo voto do eleitorado, constituído em parte de pessoas nascidas logo a partir daquela era e os que eram adolescentes na época.
A acusação é que Zélia recebeu dinheiro do esquema de Paulo César Farias, o sinistro mago conhecido como PC e que articulava todas as grandes negociatas da República durante aquele governo. Collor ficou fora do poder, PC acabou fugindo e sendo caçado como bandido e depois assassinado, e Zélia foi abrigar-se fora do País. Agora o caso da ex-ministra é retomado, porque o MPF pede a restauração da sentença de 1º grau que a condenou. Mas o que estarrece é, mais uma vez, constatar-se como decisões judiciais são tardias, porque longos 16 anos não foram suficientes para uma definição final sobre denúncia de corrupção envolvendo um destacado agente público. E o que desencanta ainda mais é saber-se que, mesmo em caso de confirmação da condenação inicial, valores que tenham sido subtraídos não serão devolvidos. Zélia foi a ministra que, em 1990, confiscou por 18 meses todos os saldos bancários dos cidadãos, superiores a 50 mil cruzados. E, por decisão de Collor, um fato atribuído como bom - e aqui citado por conter uma irônica nuance - foi ele denominar os veículos brasileiros de carroças e reduzir as alíquotas de importação, dessa forma permitindo ao Brasil conhecer coisas melhores de uma infinidade de itens importados, e por essa via os produtos brasileiros foram ficando melhores e competitivos.
Ontem, na mesma página deste Jornal que noticiava o recurso do Ministério Público Federal, lia-se que a máfia dos sanguessugas - aqueles parlamentares que votavam verbas federais para compra de ambulâncias superfaturadas para as prefeituras e recebiam por fora a sua parte. Ninguém foi punido e nenhum dinheiro devolvido. Estes são apenas dois casos citados, porque publicados ontem, mas eles se somam aos milhares na história republicana, envolvendo esferas do governo federal, Estados e municípios.





