Em 10 meses, Paraná teve 52 invasões de terra
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domingo, 14 de dezembro de 2003
Andréa Lombardo<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Cinquenta e duas propriedades rurais paranaenses foram invadidas por sem-terra, de janeiro a outubro deste ano. Pelo menos, é o que aponta o relatório da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) divulgado na sexta-feira. Todas as fazendas obtiveram na Justiça mandados de reintegração de posse, mas apenas 15 deles teriam sido cumpridos. Outras 10 propriedades teriam sido desocupadas depois de acordo entre os sem-terra e os próprios ruralistas.
O levantamento da Faep conflita com os dados da Secretaria de Estado da Segurança. O governo garante que o número de propriedades rurais invadidas é cerca de 55% menor, o que representaria 30 ocupações ao todo. Apenas duas fazendas, segundo o governo, não voltaram para as mãos de seus donos. Operações comandadas pela secretaria teriam garantido a desocupação das outras 28 propriedades.
A Faep também aponta que, no total, 65 propriedades rurais continuam sendo ocupadas por sem-terra. Trinta e seis delas, que somam cerca de 37,5 mil hectares, foram invadidas entre outubro de 1989 e setembro de 2002. As outras 29 áreas, que equivalem a 20,5 mil hectares, foram ocupadas entre dezembro de 2002 e outubro 2003. A maioria dessas propriedades está nas regiões central, sudoeste e sul do Estado.
De acordo com o assessor da presidência da Faep, Carlos Augusto Albuquerque, o ''Relatório das Invasões de Propriedades Rurais no Estado do Paraná'' vem sendo divulgado pela entidade há sete anos. A decisão de fazer o alerta para autoridades do governo e sociedade, lembrou ele, surgiu nos primeiros anos do governo Fernando Henrique Cardoso, quando houve um estouro nas invasões de terra no País. Somente no Paraná, foram 184 propriedades ocupadas entre 1995 e 1998. Este ano, 20 mil relatórios estão sendo distribuídos entre os associados da Faep, deputados estaduais e federais, senadores, juízes e prefeitos.
Para os representantes da Faep, ''a invasão indiscriminada de propriedades é consequência da impunidade concedida aos sem-terra invasores''. A volta do ''clima de tolerância'' no atual governo do Estado, afirmou Albuquerque, está fazendo com que as invasões sejam, cada vez mais, ousadas.
Em resposta às críticas da Faep, a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança informou que o governo Requião vai manter sua política de resolver com diálogo os conflitos no campo.
A Faep culpa, também, os próprios órgãos governamentais de estimular as invasões, argumentando que no início do governo Lula, o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) prometeu assentar 60 mil famílias este ano, priorizando o atendimento às famílias que estivessem em acampamentos.
O presidente do Incra no Paraná, Celso Lisboa de Lacerda, disse que o aumento no número de invasões de terra este ano é decorrente da demanda reprimida que se formou nos três últimos anos do governo anterior, quando a reforma agrária no Estado, segundo ele, ficou estacionada. O Incra no Paraná deve divulgar, na próxima semana, um balanço da reforma agrária. Lacerda adiantou apenas que 180 vistorias foram realizadas de junho para cá e nove áreas estão em processo de compra.
Já o Incra Nacional assegura que assentou mais de 26 mil famílias até agora, e que outras 4,8 mil famílias de antigos projetos de assentamento tiveram suas propriedades reconhecidas e regularizadas. Na região Sul foram apenas 807 famílias assentadas contra as mais de 13 mil famílias atendidas na região Norte. O Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) não retornou às ligações da Folha.


