A eleição de um torneiro mecânico para a Presidência da República (independentemente das metamorfoses do PT testemunhadas especialmente no ano anterior ao pleito) trouxe esperanças de adoção de medidas que pudessem contribuir para a superação de algumas das profundas desigualdades no país. Não se esperava rupturas radicais, mas medidas que pudessem produzir resultados a médio e longo prazo, com investimento em setores como Educação, com potencial para promover um ''salto qualitativo''.
No entanto, parece que o horizonte político está limitado ao tempo de mandato. Ou a estrabismos de outra natureza. Ter diploma superior passou a ser considerado elitismo. Saber língua estrangeira também. Aquilo que era direito virou privilégio, a ser reparado com programas de cotas e diminuição de rigor na seleção de diplomatas.
No lançamento do ProUni, o presidente faz piada com os que cursaram pós-graduação, fadados, segundo ele, a viver um mundo que não é real. Para compensar a falta de vagas em universidades públicas cria um programa de bolsas em universidades particulares, cuja qualidade tem sido identificada como inferior a das instituições financiadas pelo Estado. Jogando a toalha dos sonhos de quem imagina que a educação pública deveria ser, de fato, um direito de todos, o Presidente admite que ''sempre haverá universidade particular''.
O Itamaraty, por outro lado, que aparentemente se propõe a levar o Brasil a um novo patamar no panorama internacional, decide por novas regras para o concurso para diplomata. A portaria assinada pelo Ministro Celso Amorim em dezembro de 2004 retira o caráter eliminatório da prova de inglês. Mais importante do que a decisão em si, é o motivo alegado para a mudança. Segundo ele, ''não há porque fazer disso um requisito prévio em benefício daqueles que por uma chance da vida ou moraram no exterior ou os pais têm posses suficientes para que, além dos cursos normais, tenham tido cursos especiais em língua estrangeira''.
O Ministro das Relações Exteriores reconhece, deste modo, que o ensino oferecido nas escolas regulares não é suficiente para garantir uma chance de ingresso no Itamaraty. Soma-se ao coro dos que dizem não ser possível aprender língua estrangeira na escola. E opta pelo mais fácil, ao invés de propor medidas que proporcionassem ensino de línguas estrangeiras de qualidade nas escolas.
Por outro lado, nega o valor da língua inglesa nas relações internacionais. Segundo o ex-embaixador Rubens Barbosa, a língua inglesa ''é um instrumento de sobrevivência e de trabalho do diplomata'', esperando que a medida não ''venha a prejudicar o serviço diplomático brasileiro, conhecido como um dos melhores do mundo''.
É surpreendente que qualidade tenha se tornado sinônimo de elitismo e que o caminho mais curto tenha sido o de abrir mão do aprendizado de língua estrangeira como um direito. Mais surpreendente ainda por esta medida vir de um governo supostamente comprometido com a superação das desigualdades e com maior inserção internacional. Aliás, um dos motivos para justificar a compra de um novo avião para o Presidente (ao custo de 56,7 milhões de dólares), com cerca de 13 viagens ao exterior já programadas para 2005. Se o avião é importante, mais importante ainda é que os brasileiros recebam recursos em suas escolas para que todos possam aprender línguas estrangeiras. Isto sim contribuiria para maior inserção internacional do país.
TELMA GIMENEZ é professora universitária em Londrina

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