Quem narrou, do estádio de Melbourne, foi Luís Roberto:
‘‘Vem assistir... Formiga. Cátia Silene pedindo... É com ela, Cátia Silene... Pretinha... Pra Pretinha.... Gol!’’
Brasil 1, Suécia 0. Estava aberto o placar das Olimpíadas de Sydney. Seja qual for o desempenho da delegação brasileira, essa ninguém lhe tira. Pretinha marcou o primeiro ponto dos 27º jogos da era moderna.
Há algo de comovente e didático naquelas 11 mulheres que jogaram a primeira partida das Olimpíadas. Todas as suecas tinham nome e sobrenome (Caroline Joensson, Victoria Svensson). As brasileiras às vezes tinham prenome (Andréia), mas em muitos casos, só apelidos (Sissi). As suecas, louras, imensas, proteína pura. As brasileiras, mestiças, miúdas, com calções enormes e camisas que pareciam ter saído da rouparia do time masculino. Lembravam o sertanejo de Euclides da Cunha: ‘‘Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto.’’
Pretinha (Delma Gonçalves) tem 25 anos, 1,57 metro e 55 quilos. Criou-se no subúrbio carioca de Senador Camará. Sua turma tem salários medíocres (R$ 2.500, na média). Patrocinador, nem pensar. Em uma semana vagaram de Melbourne para Camberra e de lá para Sydney. Já foram despejadas da Granja Comari para deixar o campo livre para a seleção masculina.
Pretinha inaugurou as Olimpíadas de Sydney exatamente nos dias em que a cidade onde nasceu está metida numa discussão em torno da construção de apart-hotéis em bairros da Zona Sul. Todo o debate sustenta-se numa lei de zoneamento que proíbe a construção, em qualquer ponto da cidade, de apartamentos com menos de 30 metros quadrados. Acredita-se que esta restrição atende ao bom-tom da civilização e do urbanismo. Lorota. Essa lei, velha, resulta da associação do politicamente correto com o socialmente iníquo.
Um pedaço da leal cidade do Rio de Janeiro tem um velho (e inútil) namoro com a iniquidade. Durante quase 20 anos o Túnel Rebouças, que une a Zona Norte à Zona Sul, esteve praticamente fechado aos transportes coletivos e poucas foram as reclamações. Hoje a Linha Amarela, que liga a Avenida Brasil à Barra da Tijuca, não tem linhas de ônibus. Reclama-se pouco. Reclama-se mais do fato dessa linha expressa permitir o acesso da escumalha ao mar. Reclamou-se quando o metrô passou a funcionar aos domingos até a estação de Copacabana. Durante a semana, nela descem os trabalhadores. Aos sábados e domingos, numa verdadeira afronta, joga a patuléia em frente ao point de praia do Copacabana Palace.
Quando se proíbe a construção de apartamentos com menos de 30 metros quadrados, o que se quer é manter longe as pessoas que não têm dinheiro para comprar unidades maiores. A lei proíbe até mesmo que um empreendedor construa um edifício com apartamentos de 20 metros quadrados em frente a uma favela, onde a área média dos barracos é de 15 metros. Favela pode. Apartamento pequeno, não.
Os adversários dos apart-hotéis sustentam que eles são uma fraude, pois o que se quer é construir apartamentos pequenos para vendê-los a preços altos, em áreas nobres. O caroço continua no mesmo lugar: endossa-se a proibição das kitchenettes. Faz-se isso numa suposta defesa da qualidade de vida dos cidadãos, na crença de que não se pode morar dignamente num apartamento de 20 metros quadrados. Finge-se garantir moradias espaçosas para a classe média baixa. Seu verdadeiro efeito é tangê-la para a periferia ou mantê-la em quartos alugados.
Pode-se dizer que esses edifícios, com 15 apartamentos por andar, transformam-se em cortiços. Pois o Rio estava muito melhor (e muito mais seguro) quando tinha cortiços. Foi a modernidade do início da República que os botou abaixo (o mais famoso chamava-se Cabeça de Porco). Produziu-se a favela. Ela tinha uma vantagem: empurrava a choldra para cima dos morros, deixando a parte plana da cidade parecida com uma capital européia.
É perda de tempo. As capitais européias ficam na Europa. Estocolmo, por exemplo, só existe na Suécia. Lá os edifícios não têm grades, muito menos guaritas. Carro blindado é coisa de filme. No Rio, pode-se fechar os túneis, proibir o transporte coletivo nas vias expressas e obrigar a classe média baixa a morar pra lá de Senador Camará. Não adianta nada porque, como contou Luis Roberto:
‘‘Vem assistir... Formiga. Cátia Silene pedindo... É com ela, Cátia Silene... Pretinha... Pra Pretinha... Gol!’’

A cassação do legista é uma tragédia

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