É conhecida a história do doutor Simão Bacamarte, o alienista de Machado de Assis que trancafiou a população de Itaguaí no manicômio. É um prazer contar a história da psicóloga Gina Ferreira, que fez o contrário em Angra dos Reis e Parati, a poucas horas do mundo de Bacamarte.
Ela tem 52 anos. Trabalhou em Angra dos Reis em 1993 e baixou em Parati em maio deste ano. Seu negócio é tirar os doentes mentais dos hospícios. Em dois anos, dando seguimento a um programa existente em Angra, o número de internações baixou de 29 para três por ano. Em três meses, reduziu as de Parati de uma média anual de 44 para duas. O alienista de Machado estava sinceramente convencido de que os outros tinham enlouquecido. Misturando preconceito e astúcia, o tipo de atenção que a sociedade brasileira e seu sistema de saúde dedicam aos doentes mentais tem mais método que loucura. Levando-se em conta que uma internação rende ao hospital R$ 702 por mês e, de uma maneira geral, elas duram 45 dias, trancar os psicóticos (um pedaço da utopia de Bacamarte) tornou-se um bom negócio. Sobretudo quando se sabe que em muitos casos essas pessoas passam anos nos hospitais, abandonadas pelas famílias. (Um doente de Angra esteve 18 anos internado. Outro, 16 sem receber visitas de familiares. Hoje, ambos estão em casa.)
Gina Ferreira trabalhou cinco anos com a psiquiatra Nise da Silveira e oito meses com Ronald Laing, em Londres. Apoiada pelas prefeituras e pelas duas comunidades, criou mecanismos que evitam internações desnecessárias. Mais que isso, foi procurar os doentes em suas casas. Relacionou-se com eles, levando-os para um programa de atendimento diário. Dois casos mostram como é curta a distância entre uma vida livre e assistida e o cotidiano já conhecido dos hospitais de doentes mentais.
Nos arrabaldes de Parati, longe do centro histórico, ela localizou uma senhora de 38 anos com um histórico de 18 internações, seis das quais no último ano. Vivia numa casa de pau-a-pique surpreendentemente decorada com flores silvestres. Depois de lhe explicar como funcionava o seu sistema de assistência diária, lembrou-se de que não podia oferecer-lhe transporte até a cidade.
- Eu vou de bicicleta - respondeu a senhora.
Também não podia oferecer-lhe comida.
- Eu levo a marmita.
No segundo caso, uma mulher com pouco mais de 30 anos, grávida, estava a um passo da internação, de uma histerectomia e da necessidade de entregar o filho. Levada ao centro de atendimento, reequilibrou-se. Os comerciantes da cidade dão-lhe, todos os dias, uma caixa de bombons e ela os vende nas ruas. Por sua vontade, fez uma ligadura das trompas, a criança foi entregue aos cuidados de uma família, ficando entendido que será criada sabendo quem é sua mãe. Essa mulher, que há alguns meses entrava no cabeleireiro para pedir dinheiro, sentou-se há poucos dias numa das cadeiras e pediu que lhe cortassem o cabelo. Terminado o serviço, disseram-lhe que não precisava pagar. Fez questão e deu R$ 1 à moça que a atendeu. Tinha recuperado a dignidade de cidadã.
Todo o serviço da doutora Gina custa à Prefeitura de Parati cerca de R$ 3 mil (o preço de apenas três internações, por 45 dias). Nesta quarta-feira, o secretário de Saúde da cidade, Luís Antônio, inaugura o Centro de Atenção Integrada em Saúde Mental, numa pequena casa. Artistas da cidade darão aulas de cerâmica e de pintura aos doentes. Eles farão exercícios físicos, trabalharão num tear, aprenderão culinária. Irão ao Centro quando quiserem, se quiserem.
O trabalho da doutora Gina já recebeu um prêmio da Associação Mundial de Reabilitação Psicossocial, ligada à OMS. Foi considerado o programa mais original do mundo. Sua singularidade está na atuação junto aos doentes e suas famílias (sempre pobres), mostrando-lhes que podem conviver, exercendo seus direitos e seus deveres. Desde o direito à assistência médica e à cesta básica até o dever da atenção pela saúde do familiar doente.
Gina Ferreira é funcionária da Prefeitura de Angra dos Reis. Ganha R$ 1.300 por mês (metade do que Escadinha ia receber da Assembléia Legislativa do Rio). Nunca teve um DAS e quem a ouve percebe que ela não faz a menor questão disso.




A causa

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