A trapizonga que o ministro Pratini de Moraes, da Agricultura, armou em torno dos dois focos de febre aftosa surgidos no Rio Grande do Sul é um bom exemplo da capacidade do Governo de viver num mundo de ilusões.
Uma vez desmentida, essa virtualidade se transforma em política de má catadura. Na quinta-feira, inaugurando uma feira de bichos em Esteio, perguntaram ao ministro em que pé estava a situação. A essa hora já haviam sido sacrificados mais de 800 animais, numa operação que deverá sacrificar mais de mil. O ministro respondeu:
‘‘Eu sou economista e não costumo dar palpite em assuntos que não entendo.’’
Pena que esta afirmação seja falsa como as projeções da balança comercial. Uma semana antes, depois de ter comunicado a existência dos focos de aftosa em dois municípios do Noroeste gaúcho, Pratini entendia do assunto. Numa entrevista à Rádio Gaúcha, acusou o Governo (petista) do Estado de ‘‘descaso sanitário’’. Mais: revelou a suspeita de que o gado tenha sido contaminado numa ação criminosa. Muito mais, escolheu até os suspeitos: ‘‘Tem gente aí no Rio Grande que joga contra.’’
Ministro de uma pasta técnica, Pratini transferiu um problema sanitário para o campo político.
Fez isso porque sabia que a vigilância do rebanho é atribuição estadual. Sabia também que a responsabilidade pela vigilância dos dois mil quilômetros de fronteiras do Rio Grande do Sul é atribuição federal. Coisas da burocracia. Se a febre começou com um boi brasileiro, a responsabilidade é do governador Olívio Dutra. Se o boi é paraguaio ou argentino e não foi registrado, a responsabilidade é de FFHH. Como os bois nunca dizem onde nasceram, o Governo japonês ainda não descobriu a origem do foco que apareceu há dois meses num de seus pastos. Nem o brasileiro sabe dizer de onde veio o surto que abateu o gado de Mato Grosso do Sul em 1998. Técnico capaz, o secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, Luiz Carlos de Oliveira, admitiu que talvez não se consiga saber de onde veio a doença.
Essa discussão é uma rematada perda de tempo. Seja quem for o culpado, o prejuízo está feito, o boi está morto e o certificado que declararia o Rio Grande do Sul zona livre de febre aftosa não sairá antes de 2002. (Estava prometido para o ano que vem.)
A fiscalização que desceu nas propriedades da região já descobriu pelo menos um criador com 300 animais no pasto e menos de 150 no registro. É óbvio que essa conta é do Governo gaúcho.
Se a febre aftosa chega ao Japão, que não tem fronteira seca com o Paraguai, é razoável que a pecuária do Rio Grande do Sul esteja vulnerável à febre aftosa. Resta saber o que se faz quando surge a suspeita de ocorrência da doença num rebanho.
A má notícia chegou ao Governo gaúcho no dia 1º de agosto, quando o veterinário de uma cooperativa do município de Jóia levou a informação à inspetoria da cidade. No dia 3, uma equipe saída de Porto Alegre achou animais doentes numa propriedade. Colheu amostras e, no mesmo dia, remeteu-as ao Laboratório de Apoio à Produção Animal, o Lapa, que fica em Recife.
No dia seguinte, por telefone, o Governo gaúcho foi informado de que o primeiro teste, chamado Elisa, dera resultado negativo. Faltavam mais dois exames. O dos camundongos inoculados com as amostras e o de atividade viral, chamado ITB.
O Lapa é uma instituição federal e deve contas ao Ministério da Agricultura, não aos governos estaduais.
Ao final da tarde do dia 23, Pratini revelou a existência do foco. Na manhã seguinte o Governo gaúcho acusou-o de estar falando ‘‘sem nenhuma segurança científica’’. Teria feito melhor se esperasse um pouco, mas a verdade é que a informação não lhe fora passada. Ela só lhe chegou às 13h15.
Há um mistério nessa história. Os camundongos do Lapa, inoculados a partir do dia 4, começaram a morrer no dia 8. O Governo gaúcho só soube disso 16 dias depois.
Se é essa a maneira como se administra o problema da febre aftosa, o Rio Grande do Sul só receberá a carta de alforria internacional nos próximos 50 anos. Some-se a isso o fato de que, segundo um empresário da pecuária, focos semelhantes são debelados clandestinamente pelos criadores. Em 1998, um deles teria resultado no sacrifício de 200 animais. (Esse método seria usado também na Argentina.)
O Governo federal produziu a ilusão de que o Rio Grande do Sul pode receber o certificado internacional.
Trata-se de mais uma brincadeira de Primeiro Mundo. Anuncia-se que o papel vem aí e mete-se em cima a previsão de que permitirá a exportação de US$ 1 bilhão a partir do ano 2000. Projetada a lorota, a ekipekonômica revê suas contas para o balanço de pagamentos e diz que o futuro está na esquina. (Como fez com a safra deste ano, que foi de recorde a quebrada em menos de seis meses.)
Pratini cavalgou com elegância a previsão das exportações de carne fresca. Quando o Brasil real lhe bateu à porta, tentou politizar a febre, satanizando a ‘‘gente que é do contra’’. Verificado o primarismo da acusação, passou a informar que é economista e não fala do que não entende. Nessa linha, a galera, penhorada, tem muito a lhe agradecer.------------------------------------------------------------------------------
Eremildo, o idiota do fundo de pensão
Eremildo é um idiota. Ele mora nos fundos da Pensão Virgínia, no Catumbi, e ganha a vida no mercado financeiro como especialista em fundos de pensão. Divide o quarto com dois garçons chamados Eduardo e Jorge, e com isso amealhou grande prestígio junto aos operadores, que viram nele um amigo de Eduardo Jorge.
O idiota descobriu que as negociações para a compra da posição que a Telefonica de Espanha tinha na Companhia Riograndense de Telecomunicações indicam o início do colapso do dólar e, provavelmente, a iminente derrocada do sistema financeiro mundial.
Desde fevereiro o idiota vinha arquivando todos os documentos públicos relacionados com essa operação. Descobriu o seguinte:
O Banco Opportunity queria pagar US$ 730 milhões pela parte da Telefonica. Ela, com toda razão, queria receber mais. Pedia US$ 850 milhões.
O idiota não conseguiu entender por que a Telecom Itália, sócia do Opportunity na operação, preferia pagar US$ 850 milhões pedidos pelos espanhóis a acompanhar o seu parceiro na oferta de US$ 730 milhões.
Contaram-lhe uma história esquisita, mas ele a desprezou, visto que o idiota jamais acredita no que ouve.
O Opportunity e a Telecom Itália tinham dois outros sócios, os fundos Previ (do Banco do Brasil) e Petros (da Petrobras). Desde fevereiro Eremildo leu toda a papelada e não achou uma só linha de texto na qual a Previ ou a Petros se dissociassem da idéia de pagar US$ 850 milhões.
A Telefonica vendeu sua posição por US$ 800 milhões. Feito disso, o fundo de pensão do Banco do Brasil informou aos seus associados que ‘‘acabou prevalecendo a posição defendida pela Previ’’. Onde esta posição foi defendida, o idiota não leu.
Eremildo concluiu que para a Previ e a Petros, seja qual for o lado em que estejam, US$ 800 milhões ou US$ 850 milhões são mais ou menos a mesma coisa. Se US$ 50 milhões viraram uma irrelevância, o doutor Alan Greenspan, do Federal Reserve, precisa ser avisado. Ele zela pelo valor do dólar e o idiota convenceu-se de que para a Petros e para a Previ, a moeda americana já foi para o brejo.
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Quiromancia
Pelo andar da carruagem, com a ekipekonômica sentindo o frio da inflação e o gosto do Planalto por lances de popularidade, antes do fim do ano haverá mais uma crise ministerial.
Estão fazendo pontaria no ministro Alcides Tápias, do Desenvolvimento, mas ele já localizou a janela onde se instalou um dos atiradores. Se o acertarem, ficará entendido que o cargo de ministro do Desenvolvimento é mais perigoso que a Secretaria de Segurança de Alagoas.
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Boa notícia
Pela primeira vez em seus 320 anos de história, a Comédie Française encenará uma peça para crianças. Será o musical ‘‘Pianíssimo’’, de Tim Rescala. O elenco da companhia será dirigido pela brasileira Tânia Costa, que vive em Paris desde 1988.
A apresentação fará parte do programa de Natal da Comédie e a peça será levada na Sala Richelieu, com 800 lugares.
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Remédio exclusivo
Os laboratórios europeus e americanos estão estudando a possibilidade de mudar de terapia política. Desde o início dos anos 90 eles formam uma associação, a Interfarma. Apesar disso, o grosso de seus interesses comuns ficou sob gestão da Abifarma, que reúne toda a indústria farmacêutica.
Depois de um ano de encrencas, as multinacionais discutem a possibilidade de se afastarem da Abifarma. Passariam a militar preferencialmente na Interfarma.
Se isso acontecer, os grandes laboratórios estrangeiros só entrarão nas suas próprias brigas.
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Malvadeza
A Caixa Econômica está fazendo uma malvadeza com os 250 técnicos que selecionou em concurso público. Num lance de prepotência e inépcia, alocou cada um dos novos funcionários onde bem entendeu, nas funções que quis. Disso resultou que pessoas residentes no Rio foram mandadas para Brasília, analistas de sistemas foram para funções bancárias e contadores para centrais de processamento de dados. Só 69 ficaram nas cidades em que fizeram as provas.
Os burocraixas valeram-se de diversos critérios, entre os quais as necessidades de pessoal e as notas dos candidatos. Deixaram inteiramente de lado o currículo, o interesse e as peculiaridades da vida de seus novos funcionários.
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Silvano Raia
(70 anos, professor de cirurgia da Faculdade de Medicina da USP de 1981 até sexta-feira passada, quando se aposentou.)
- Antes de deixar a faculdade o senhor foi fotografado junto a cerca de 200 pessoas que vivem hoje com fígados transplantados na unidade que criou em 1969. Em 1956, ao receber o seu canudo, o senhor achava que uma coisa dessas seria possível?
- Nem em sonho. Quando eu me formei, o fígado ainda era considerado um órgão inabordável. Havia o mito de que não podia ser suturado, pois rasgava-se. Diante de uma grave lesão hepática o cirurgião fechava o paciente. Em 1985, na Unidade de Fígado, fizemos o primeiro transplante bem-sucedido da América Latina. Era uma jovem cearense que tinha um tumor de cinco quilos. Viveu 11 meses e morreu de metástases do tumor. A terceira receptora foi uma senhora que estava ao meu lado na fotografia que tiramos. Nossa equipe acompanha 280 transplantados. No ano passado fizemos 90 transplantes e, de cada dez, oito pacientes sobreviveram ao período crítico do primeiro ano. Nosso desempenho está no nível do europeu e do americano. Em 1988 nossa equipe fez o primeiro transplante inter vivos do mundo. Nenhum dos nossos pacientes jamais assinou um cheque em troca do tratamento recebido. Em torno de 90% são pessoas da classe média baixa, protegidas apenas pelo SUS.
- Como é que se produziu esse resultado dentro da rede de saúde pública?
- No final dos anos 60 eu estava na Inglaterra, no Royal Free Hospital, e vi duas coisas. Uma era técnica: o transplante de fígados de porcos. A outra era estrutural. Criara-se uma Unidade de Fígado. Ao retornar ao Brasil, formei um embrião dessa estrutura. Dois jovens médicos foram para a Europa e quatro para os Estados Unidos. Isto só foi possível pelo nível profissional da Faculdade de Medicina e do Hospital das Clínicas, com professores como Renato Lochi e Edmundo Vasconcelos. Além deles, o cardiologista Euryclides de Jesus Zerbini revolucionou a máquina. Ele constituiu uma fundação, capaz de receber verbas e doações, de forma a suplementar os salários dos médicos e profissionais. Produziu um híbrido, que levou a medicina de ponta aos pacientes do SUS. Em 1983, quando eu dirigia a faculdade, constituí a fundação que hoje congrega todas as disciplinas. A Faculdade e o Hospital das Clínicas são uma ilha de qualidade. Digo com orgulho que se chegou a esse nível com aqueles portões imensos abertos para o povo do SUS.
- Que conselhos o senhor daria a um estudante que está entrando no prédio da faculdade agora, quando o senhor está saindo?
- Mantenha-se atento a dois fenômenos. Um é a revolução tecnológica. O outro são os problemas éticos e de consciência social que acompanham as mudanças. Antigamente essa visão humana da medicina podia ser um sentimento. Hoje é uma necessidade.
Segundo: Não se especialize antes da hora. Peregrine pela generalidade. Sabendo mais, o especialista sabe melhor.
Terceiro: Lembre-se que você está numa sociedade onde 70% da população só têm o SUS. Se você pensar em fazer uma carreira excluindo-a, um dia descobrirá que se tornou um excluído. Um médico que vive só do que lhe paga o SUS condena-se a viver mal. Outro, que pretende viver fora dele, acabará tendo uma má vida. As duas situações são conciliáveis.

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