O nome é diferente - eletroconvulsoterapia (ECT). O princípio, no entanto, é o mesmo do antigo ''eletrochoque'': usar impulsos elétricos para estimular áreas específicas do cérebro e tratar depressões severas. Centros de estudos norte-americanos e europeus buscam disseminar o tratamento, mesmo diante do preconceito herdado do passado.
No Brasil, um dos maiores entusiastas do procedimento é o psiquiatra Moacyr Rosa, que atualmente é pesquisador associado do Departamento de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Universidade Duke, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Ele garante que embora tenha efeitos colaterais temporários, a técnica é segura e positiva para até 90% dos pacientes, incluindo idosos e gestantes.
Mesmo diante das críticas, Rosa admite que o tratamento atual deriva do eletrochoque, que ele considera como ''a primeira revolução antimanicomial''. E o psiquiatra garante ainda que a ECT de hoje pode salvar vidas.
Os tratamentos psiquiátricos baseados em choques elétricos são vistos como sinônimos de tortura e violência contra os pacientes. É possível derrubar o preconceito e retomar sua aplicação no Brasil?
Qualquer tipo de tortura ou violência para com um ser humano, e especialmente para com pacientes psiquiátricos, é um crime e deve ser punido de acordo. A eletricidade é um instrumento muito importante na medicina, mas, ao contrário do que se pensa, não é o principal aspecto desse tratamento.
Os disparos cerebrais podem ser gerados com medicações, gases inalados ou pulsos magnéticos. Contudo, ainda acho muito difícil que essa imagem de um tratamento agressivo seja mudada porque a ignorância e o preconceito estão muito enraizados.
O que a estimulação cerebral baseada na eletroconvulsoterapia (ECT) tem a ver com o eletrochoque do passado?
O termo eletrochoque tomou uma conotação negativa ao longo dos anos. Esse nome traz à memória imagens de tratamentos mostradas em filmes como ''Um Estranho no Ninho'' e ''Bicho de Sete Cabeças''. A neuroestimulação atual tem pouco a ver com isso, apesar de representar uma evolução histórica do mesmo tratamento. Os tratamentos modernos são realizados com anestesia geral e relaxamento muscular, sempre em ambiente hospitalar.
A ECT foi uma das mais importantes descobertas na história da medicina e da psiquiatria. Quando ela surgiu, não havia remédios ou tratamentos eficazes para os principais transtornos mentais como hoje. Um diagnóstico de esquizofrenia, por exemplo, era praticamente uma condenação a viver e morrer dentro de asilos.
Pessoas atualmente envolvidas em movimentos para ''libertar'' doentes mentais de hospitais psiquiátricos nunca irão reconhecer, mas o eletrochoque foi a primeira revolução antimanicomial: de repente, era possível tratar uma doença até então incurável. Quando as medicações surgiram nos anos 1950, houve um entusiasmo grande e justificado de que o eletrochoque passaria a ser desnecessário. Infelizmente, as medicações se mostraram bastante limitadas para uma proporção grande de pacientes.
Para qual paciente a neuroestimulação pode ser indicada?
A eletroconvulsoterapia surgiu como um tratamento para esquizofrenia, mas logo se mostrou mais eficaz para transtornos depressivos e para quadros chamados catatônicos (síndrome na qual a pessoa para de falar, de se comunicar e de se mexer). As principais situações em que estaria indicada são risco iminente de suicídio (ou de morte por inanição, por exemplo) e refratariedade às medicações.
Quais as vantagens da ECT em relação a outras formas de tratamento?
Sua grande vantagem é a maior eficácia e um efeito mais rápido. Outro aspecto positivo é que não induz ganho de peso ou efeitos colaterais na área sexual, como pode ocorrer com as medicações, o que leva muitas vezes à interrupção precoce do tratamento. Idosos, por exemplo, tendem a sofrer mais efeitos colaterais dos remédios e tendem a responder melhor à ECT. Outra situação é durante a gestação. A ECT estaria indicada no primeiro trimestre, apesar de poder ser utilizada em qualquer fase da gestação. Quadros puerperais também podem se beneficiar, pois a amamentação não precisa ser interrompida durante a ECT.
E as desvantagens do procedimento?
A grande limitação da ECT é que estimula o cérebro com pouca focalidade. Regiões responsáveis pelo funcionamento da memória, por exemplo, são estimuladas em excesso, o que parece levar à exaustão dos circuitos e amnésia temporária. Outra desvantagem é que os pacientes têm que ir para o hospital de duas a três vezes por semana durante mais ou menos um mês, porque o número de sessões varia de seis a 12. Novas técnicas de estimulação cerebral mais focal têm sido desenvolvidas. Embora ainda não demonstrem a mesma eficácia da ECT (que chega a até 90% dos casos), já são usadas em casos como depressões moderadas.
Na internet circula a seguinte frase atribuída ao senhor: ''É injusto. Cardiologistas são heróis quando dão choque no peito, nós somos carrascos porque damos choque no cérebro''. Tal comparação é possível?
Sim. Acho que a doença mental não é levada a sério como as doenças cardíacas, por exemplo. O público leigo frequentemente pensa em depressão como uma tristeza profunda que pode ser resolvida com carinho, religião ou exercícios. Estas coisas são muito boas e podem ajudar, mas não é só isso. Depressão é uma doença como um câncer ou o diabetes. Tristeza é somente um dos sintomas possíveis.
Só nos EUA, a depressão afeta cerca de 20 milhões de pessoas e é um fator de risco para doença coronariana e derrame. Tem uma mortalidade de aproximadamente 10% devido a suicídio.
É claro que comparações são sempre limitadas. Fico muito feliz pela glória dos meus colegas cardiologistas e peço que me deem um choque no meu peito caso eu necessite. Ninguém nega a existência de uma arritmia e a sua consequência lógica que é o óbito do paciente. A cardioversão elétrica é um excelente tratamento e pode realmente ser salvador. Além disso, ninguém faz movimentos contra o choque no peito.
Por outro lado, a relação causal entre depressão grave e suicídio, que é cientificamente indiscutível, parece não ter o mesmo peso. A Organização Mundial de Saúde já reconhece que a depressão é uma das principais causas de incapacidade em todo o mundo. Foi daí que veio a comparação. A ECT é o melhor tratamento existente na atualidade para depressões graves e o seu mérito não é proporcionalmente reconhecido.

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