Eles usam Giorgio Armani - Fernando José Dias da Silva
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segunda-feira, 14 de setembro de 1998
Fernando José Dias da Silva 
Parabéns, Mickie. Você acaba de economizar mil dólares. Por isto, faça-me um favor. Vá ao Armani e compre um terno e não me volte aqui. Porque Armani faz ternos Armani melhor do que eu. A porta é por lá. Um terno feito por mim, Mickie, não é um guincho de bêbado. É linha, é balanço do olho, é silhueta. É a insinuação que diz ao mundo o que ele precisa saber sobre você e mais nada (...). Eles sugerem. Dão a entender.
Esse é o desabafo do personagem Harry Pendel diante de um cliente seu metido a besta no delicioso O Alfaiate do Panamá, de John Le Carré. Os especuladores financeiros, os senhores da economia mundializada, usam todos Giorgio Armani. Mais grave não é usar os mesmos ternos, é pensar da mesma forma. Eles abandonaram também o raciocínio sob medida.
Como as roupas, o objetivo desses senhores é uniforme: o lucro. Pura e exclusivamente o lucro. Hoje, as empresas e os conglomerados, os grupos industriais e financeiros privados pretendem dominar o mundo, lançando suas investidas e acumulando um imenso espólio. Nunca os senhores da Terra foram tão poucos e tão poderosos.
E eles são exclusivistas. Não gostam de mistura com os que não são seus iguais. Esse povo, esses países que insistem em estar por aí sem terem sido convidados para a festa dos novos tempos.
E sabe o que essa ralé tenta fazer? Tenta por todos os meios entrar nesses círculos restritos. Submete-se a vexames inenarráveis para disputar as migalhas e ainda se sente agradecida quando recebe apenas um olhar, mesmo que seja de desdém, de um dos sócios desse clube fechadíssimo.
Os novos senhores da Terra também não enxergam um palmo na frente do nariz. Estão exterminando aqueles que são a essência das suas vitórias. Atrás das luzes dos holofotes as sociedades já não se enxergam claramente. Estão obcecadas pelo desemprego, invadidas pela incerteza, intimidadas pelo choque das novas tecnologias, perturbadas pela mundialização da economia.
Onde estão os espíritos criativos? Será que não existem aqueles que através de suas manifestações consigam provocar mobilizações para evitar o caos?
Por enquanto os governos estão apalermados. E o governo brasileiro não foge à regra. Os dólares jorram pelos ralos sugados pelos predadores de economias emergentes. As medidas de contenção chegam com atraso. Aumentam-se os juros, e com eles a dívida pública. As bolsas de valores entram numa ciranda alucinada. As tentativas para conter a ciranda não são eficazes e podem até provocar efeitos contrários como uma nova estatização de empresas privatizadas.
Nos últimos dias, o BNDES comprou toneladas de ações, mas as cotações continuam alcançando profundezas abissais.
Será que não existe um bom alfaiate e alguém disposto a usar uma roupa sóbria, mas que seja diferenciada dessas que são compradas nos balcões das lojas?
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em Brasília


