Neste sagitariano 10 de dezembro Londrina fez 62 anos. Revendo arquivos, encontro artigo que escrevi em 1983, neste mesmo dia 10, quando a cidade comemorava seus redondos 50 anos. Em verdade foi uma crônica que me encomendaram, para ser lida durante solenidade que houve no Teatro Ouro Verde para entrega de medalhas a pioneiros. Eu disse:
Em 1928, em Londrina, a cidade só tinha floresta, onça e mosquito. De repente chegaram uns homens. Não sei se chegaram de ônibus, de trem ou de avião. Ou se em lombo de burro. Não me lembro, pois eu ainda não havia nascido.
A estação rodoviária já tinha um lugar, mas era só mata virgem. A estação de trem era ali na baixada, mas ainda não havia sido construída, porque o mato era muito cerrado. Também já existia a pista do aeroporto, mas o cipoal tomava conta de tudo. A Via Expressa já estava com o vale pronto, e enquanto não havia chegado o tempo de construí-la, serviu durante muitos anos a um córrego, para que as onças tivessem onde beber. Havia ruas cortando a cidade em todas as direções, mais de mil, mas ainda estavam cheias de árvores. E havia também muitas casas de madeira, centenas delas, mas estavam ali aprisionadas em forma de toras e palmitos. O campus universitário era no Perobal, mas estava infestado de perobas. Aqui na Catedral já haviam depositado a terra, levantando o espigão para que não ficasse empoçada a água das chuvas, e porque, no ponto mais alto, Deus estaria mais próximo.
E o lugar de todas as coisas estava cada qual onde deveria ser.
Aí aqueles homens que haviam chegado pegaram seus machados e foices e facões e começaram a derrubar as árvores e os cipós que atravancavam as ruas e que guardavam em seu seio as casas e os paióis e as cercas; e que cobriam de sombra toda a cidade.
O barulho que eles fizeram foi tão grande que chegou aos ouvidos de mais gente de Minas Gerais, de São Paulo, do Sul, do Nordeste, da Europa, do Japão, e até do Paraná...
As onças ficaram assustadas e correram. Curiosos começaram a chegar de todo lado. Aquele barulho infernal de foices e machados, de onças correndo, atraia mais e mais gente. A lama prendia à terra os que chegavam, impedindo que pudessem voltar, e marcou-lhes de vermelho os pés, para que ficassem ungidos e valentes. Porque eles tinham o compromisso de construir aqui uma nova civilização.
Haviam chegado notícias de que, cinquenta anos depois, ia haver aqui uma grande festa e que até lá era preciso estar com a cidade pronta. Havia pouco tempo, a empreitada era grande.
Um inglês subiu ao tronco de uma árvore derrubada e falou alto:
- Temos que construir a primeira casa, pois esta cidade só tem mato, onça e mosquito! Temos que abrir ruas, construir hospedarias, que vem chegando mais gente!
O lorde tinha razão: de todas as esquinas da mata foram apontando cabeças e em pouco tempo já haviam chegado vinte centenas.
Aí um gaiato fincou a placa no portal da primeira picada:
- Chega! Iguais a você aqui já tem dois mil. Volte!
Se chegar havia sido difícil, voltar era impossível. Vieram mais dois mil, sete vezes dois mil...
Já havia uma casa, depois construiram a casa dois, a três, a cinco, a Casa Sete.
Yes, why not?
Mas faltava abrir as ruas, construir a residência do lorde, sobretudo levantar a igreja, pois haviam chegado muitos pecadores, quase a maioria, cada vez chegando mais e o padre já estava impaciente.
Era preciso construir a escola, o clube para dançar, e cada qual passou a dançar conforme a música... Documento, ninguém pedia, eis que não precisava, pois iguais aos primeiros já havia dez mil.
As onças, prudentemente, espreitavam à distância. Já então havia mais homens do que onças, que araras e papagaios.
- Papagaios! Estes não podemos dispensar - lembrou o lorde.
Então chegou o primeiro banco... e cinquenta anos depois todos ainda estariam endividados... Foi o primeiro erro histórico do lorde. Mas a obra não podia parar.
Acenderam a primeira luz na floresta. Não tardaria que chegassem as mariposas... Elas vieram em profusão, serpenteando vôos na noite cintilante.
Amanheceu 1934. O lorde, então, subiu até o galho mais alto da penúltima das árvores que restaram e bradou: ‘‘Estamos emancipados!’’ Mas alguém mais sensato ponderou de pronto: ‘‘Mas ainda não temos um colégio, não temos um hospital, nem rádio, nem jornal, nem televisão! Daqui a 50 anos - vaticinou - vão nos perguntar porque não os construimos! Tudo isto e muito mais vão nos cobrar: lojas, mais bancos, o aeroporto, ruas asfaltadas, um time de futebol que só lhes traga alegria, a Universidade!’’
Então os mineiros, paulistas, gaúchos, catarinenses, nordestinos, europeus, japoneses e até paraenses - curitibanos, nenhum, pois eles eram surdos, não ouviram o troar dos machados, e ademais tinham muito que conversar na Rua 15 - aqueles homens então afiaram de novo suas foices e facões e começaram a construir escolas, ruas asfaltadas, praças e jardins, casas de alvenaria, edifícios altos, o time de futebol, indústrias, a Universidade. Ligaram para as Arábias e pediram homens que abrissem lojas, e eles vieram, eis que eram pessoas que não se adaptavam ao serviço pesado... Ligaram para a Bahia, para Santa Catarina, e pediram que viessem jornalistas, pois a cidade precisava de jornais, eis que a escola já havia ensinado a ler. Os jornais, então, começaram a escrever algumas mentiras, que em Londrina havia um milionário em cada esquina. Foi aí que começaram a chegar aqueles que vinham para tomar o dinheiro desses milionários...
O lorde ficou furioso. Subiu no telhado da Igreja Matriz e bradou: ‘‘Esta cidade só tem aventureiro!!!’’
E quis cercá-la, para fazer dela uma grande cadeia. Faltava, porém, o homem que pudesse fechar por fora a grade.... Procuraram, procuraram, mas não acharam...
Chegou dezembro de 1983.
Os culpados diretos e coniventes já somavam quatrocentos mil. Pertenciam todoas à Seita dos Pés Vermelhos. Estavam todos envolvidos.
Do alto das escadarias da Igreja Matriz, então, o sacerdote abriu os braços em prece de agradecimento e absolveu a todos, pois esses homens haviam trabalhado muito, era serviço demais feito em apenas cinquenta anos!
Eles haviam construído Londrina.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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