ELEITORES E CANDIDATOS - Relações se transformaram em um 'mercadão'
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sábado, 04 de outubro de 2008
Thiago Nassif<br> Reportagem Local 
Após o relatório da Transparência Internacional criticar a falta de compromisso do governo federal em combater a corrupção no Brasil - num índice 10 para um Estado ''limpo'' a zero para um Estado ''corrupto'', o País atingiu ínfimos 3,5 -, a população vai às urnas hoje deixar seu voto nas eleições municipais.
Um compromisso com a cidadania? Não somente. Para o professor e chefe do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Maringá (UEM), José Antônio Martins, a população brasileira deve deixar de lado a impressão de que o combate às irregularidades e desmandos se dá apenas nas urnas. Autor do livro ''Corrupção'', lançado anteontem pela Editora Globo, Martins argumenta: escolher bem não exime as pessoas da participação. ''A falta de consciência é cotidiana, e não fruto de uma falta de consciência a cada dois anos'', reforça.
Não é raro as pessoas torcerem o nariz para a política. Elas alegam até gostar de política, mas não dos políticos. Diante disso, podemos encarar a corrupção como algo individual?
Temos o costume de relacionar, cotidianamente, a corrupção a algo individual, como geralmente falamos do ''ladrão'', do bandido, da pessoa com a moral corrompida. Não é desse tipo de corrupto que estamos falando. Esse é o criminoso típico, o criminoso-padrão. Quando falamos de corruptos e ladrões, ambos são criminosos, estão violando a lei. Para isso, já existe a lei e todo um arcabouço. O problema é quando temos uma corrupção mais endêmica, disseminada. Aí não se trata de corrupção individual.
No caso do Brasil, a corrupção já virou uma praga?
Sim. Por mais que o sujeito eleito seja honesto, ele vai ser tragado e absorvido pela lógica da corrupção. Um exemplo: se em determinado departamento policial corrompido ingressar alguém íntegro, ele será tragado pela lógica da corrupção. Isso vale para fiscais da Receita, do Judiciário, das escolas, etc. Na esfera política, por exemplo, quando todos os vereadores foram tragados pela lógica da corrupção e temos uma Câmara totalmente corrompida, o processo se repete.
O que pode ser feito para desmontar esse processo?
Se há a lógica da corrupção instaurada, não adianta o sujeito ser moralmente correto, individualmente honesto. Ele será tragado. Maquiavel tem uma metáfora que diz que o Estado é um corpo e a corrupção é como uma doença, uma chaga, um tumor. Se você não tirar isso, a corrupção se alastra e vai comendo todo o membro e, se não cortarmos todo o membro, perdemos o corpo, todo o corpo morre. Nesse sentido, não adianta somente ser honesto. E isso vale para a população. Precisamos aprender que a política está presente em nosso dia-a-dia, desde o momento que colocamos os pés para fora de casa. Não gostar de política definitivamente não é a solução.
Diz-se que votar é um exercício da cidadania. As pessoas estão cientes de suas escolhas?
Estamos confundindo cidadania com ser votantes. Não basta apenas votar. Parece que toda a cidadania se resumiu a ir votar, numa espécie de ''votei, cumpri meu papel''. Temos que ser mais que isso, mais que um voto. Precisamos acompanhar, mesmo que o nosso candidato não seja eleito, o que é decidido na Câmara, na Assembléia, no Senado, o que o prefeito está fazendo. Temos que quebrar a barreira de que, após as eleições, só poderemos mudar determinada realidade quatro anos depois. Mentira. Se escolhermos mal um prefeito ou vereador, como pode acontecer hoje nas eleições municipais, um mês depois podemos mudar essa realidade, com a realização de protestos, barricadas. Sempre tendo em mente: o ponto fraco dos políticos não é o dinheiro. A força, o lado sensível, é o voto.
Pressionar resolve?
Sem dúvidas. Basta olhar o que aconteceu nos Estados Unidos esta semana. O presidente George W. Bush fez um pacote de socorro à economia americana e mandou para a Câmara Federal, que rejeitou. Por que a Câmara rejeitou? Porque os congressistas foram para suas bases e o povo deixou claro que, se o pacote fosse aprovado, esses mesmos congressistas não contariam com seu voto. Os congressistas então pressionaram Bush a refazer o pacote, com uma série de mudanças. Se daqui a um mês os EUA vão trocar o presidente e ainda assim há mecanismos políticos, o que dizer de quatro anos de mandato?
O senhor é favorável ao voto obrigatório?
O voto deveria ser obrigatório por uma questão de consciência. Reforço: a política está em nosso cotidiano. Qual o nome técnico para calçada? É passeio público. Qual o nome técnico para rua? É via pública. A praça, é praça pública. Se as pessoas tivessem uma postura cidadã, em que o dinheiro arrecadado pelas prefeituras fosse bem gasto à medida que os impostos subissem, tudo bem de o voto não ser obrigatório, mas naturalmente elas gostariam de votar, para defender seus interesses. Não se trata, então, do voto ou do não voto, e sim do envolvimento das pessoas. Com o voto facultativo, ainda teremos pessoas que vão votar em troca de um chinelo de dedo, dentadura ou cesta básica. Todas as relações se transformaram num mercadão repleto de gôndolas, em que os eleitores escolhem seus candidatos com ou sem ''gordura trans'' e são ressarcidos por isso.


