Já foi dito que o eleitor busca resultados e vota cada vez mais levando em conta as realizações dos candidatos, e menos seus discursos. Eu mesma ressaltei essa tendência em inúmeros artigos publicados na Folha , sendo alguns destes escritos durante a última campanha presidencial que culminou com a vitória do atual presidente, Fernando Henrique Cardoso. Num deles, de 28/9/94, afirmei:
‘‘No caso dos candidatos à presidência da República, somente Fernando Henrique Cardoso apresenta ação concreta de combate à inflação, e consequente resultado de melhoria de vida para todos os brasileiros através do Plano Real por ele elaborado enquanto ministro da Fazenda. Daí o crescimento de sua candidatura. Isso significa que temos hoje no Brasil muito mais um eleitor de resultados do que um eleitor de ilusões, aquele que num passado próximo ainda se deslumbrava com promessas impossíveis e discursos demagógicos.
Naturalmente, este processo de amadurecimento do eleitorado não quer dizer que no Brasil se chegou à plenitude da consciência cívica. Isto seria impossível dada nossa formação histórica e política. Porém, o fato é que, de eleição em eleição, de frustração em frustração em termos de acontecimentos políticos, uma percepção mais atilada vai se esboçando entre o povo em geral no tocante à utilidade do voto.
A nível mais próximo, ou seja, nas eleições para deputados estaduais e federais, senadores e governadores e, especialmente, para vereadores e prefeitos, as armadilhas de persuasão e da emoção capturam com mais facilidade o eleitorado. Isto porque, processando-se mais de perto, trazendo aos palcos políticos iluminados pela propaganda figuras mais conhecidas, este tipo de campanha paroquial acentua os acordes emocionais que jazem no fundo das pregações demagógicas’’.
Não creio que a consistência do eleitorado que assim descrevi em 94 tenha mudado passados quatro anos. O que vemos hoje é o candidato Fernando Henrique apresentando suas realizações de governo, e Lula (até os candidatos de maior densidade eleitoral são os mesmos), desta vez de braço dado com Brizola, despejando críticas sem fundamento, inverdades de todo o tipo e frivolidades sobre assuntos complexos que está longe de dominar.
Alguém já disse que mais cedo ou mais tarde todos nós atingimos nosso nível de incompetência. Lula chegou ao auge de seu sucesso como líder sindical a partir de circunstâncias peculiares. Agora, se pelos acasos do destino ou da sorte de alcançar a presidência da República, atingirá o mais estrondoso nível de incompetência que alguém jamais tenha alcançado. Ainda mais que estará respaldado por Brizola.
Mas, falando em situações e essências que se repetem, observe-se que são as mesmas as atitudes de Leonel Brizola, político aliás bem mais persuasivo e ardiloso do que o candidato do PT. Sobre o engenheiro Leonel de Moura Brizola, vale à pena recordar o que escreveu Gilberto de Mello Kujawski em ‘‘O Estado de São Paulo’’ do último dia 2:
‘‘Com seu olhar incendiário, a tosca oratória populista, aquele nacionalismo pré-jurássico e a voz melodramática, esse personagem está disposto a virar a mesa quando sabe que vai perder o jogo. Dos líderes populistas em nosso país, Brizola sempre foi o mais extremado, tanto no discurso quanto na ação. Governador do Rio Grande do Sul em 1961, quando na renúncia de Jânio, defendeu com unhas e dentes a posse de João Goulart, encabeçando a Rede da Legalidade, formada por 104 emissoras gaúchas, catarinenses e paranaenses, e distribuindo armas à população civil para a luta armada. No governo do Rio de Janeiro, sua política de segurança resultou no controle do morro pelo crime organizado, um Estado dentro do Estado. Inimigo jurado do capital estrangeiro, estatizante e antiprivativista, intervencionista contumaz, não respeita nem a propriedade privada nem a liberdade. Com esse homem nenhum diálogo é possível, e Lula vai arrepender-se de procurar seu apoio’’.
É possível que no Paraná o governador Jaime Lerner, candidato à reeleição, já tenha se arrependido de certos apoios passados e presentes. Esquecendo-se de que as essências do poder se repetem como tendências regulares, e de que toda ação provoca uma reação que conduz a um resultado, parece ter caído na armadilha antevista por Rafael Greca, este luminar da política paranaense. Enquanto isto, em pleno fragor da batalha, Álvaro Dias faz gol contra e vai para a França assistir à Copa do Mundo. Um gesto de desmesurada e descabida altivez por conta do momento político, e de descaso para com seus correligionários e potenciais eleitores. Um descaso que pode acabar de esfacelar o PSDB no Paraná.
Resta agora aguardar o escoar do tempo até o desfecho das urnas. Eleitores cada vez mais atentos julgarão resultados, mas, também, sobretudo em nível local, serão bombardeados pelo festival de promessas, inverdades, ofensas entre candidatos, de que as eleições são feitas. No fundo será o embate de eleitores de resultados versus eleitores de ilusões. Vencerá o pragmatismo ou a emoção.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga

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