A matemática confere: o PT venceu as eleições. Somando os votos dos dois turnos, alcançou quase 18.500.000 votos, deixando em segundo os três partidos da aliança governista na faixa entre 14 e 15,5 milhões. O PT atingiu a maioridade. Mas sua posição não significa superioridade. Isso porque os quatro maiores partidos governistas governarão 4.807 municípios, dos 5.559, nos quais estão 68% do eleitorado, enquanto os partidos oposicionistas ficarão com 752 municípios, totalizando 31,8% do eleitorado, índice que abrange 18,4% do PT. Ou seja, o PT controlará menos de 200 da totalidade dos municípios. Com um detalhe: os petistas comandarão 14 dos maiores colégios eleitorais do País, incluindo 6 capitais, localizadas em todas as cinco regiões do País (Belém, Recife e Aracaju, São Paulo, Goiânia, Porto Alegre).
A vitória do PT tem muitas explicações. Foi o partido que melhor encarnou o ideal ético da sociedade. Liderou as batalhas pela moralidade administrativa, energizando a sociedade. Em segundo lugar, abandonou a postura hermética de sua histórica trajetória, abrindo parcerias com partidos de todos os espectros. Terceiro, esqueceu o tom radical, adoçando o discurso. Quarto, passou a aceitar propostas mais afinadas com grupamentos do centro da sociedade. Além disso, escolheu perfis mais modernos, assépticos e menos comprometidos com a prática da velha política. Por isso, pode-se concluir que o PT foi o mais eficaz.
O recado, portanto, está dado. A sociedade apostou no avanço, contra a mesmice, o caos, a má qualidade dos serviços, a corrupção. Os bons prefeitos foram premiados com a continuidade. Resta esperar que a prefeitada consiga administrar, com eficiência, sob o rigor da Lei de Responsabilidade Fiscal (que restringe e controla gastos), a Lei Camata (que fixa em 60% os gastos do orçamento com pessoal) e os ditames da reforma administrativa. A sociedade está de olho nas administrações. E todos sabem que as cores de hoje farão o desenho do amanhã.
O maior desafio vai ficar no âmbito do próprio PT, a partir de São Paulo, o município com uma dívida de R$ 18 bilhões. Se Marta Suplicy, em dois anos, não conseguir equacionar e escalonar esse montante, a níveis compatíveis com um forte programa de investimentos, estará inviabilizando projetos futuros do partido. É interessante ver o PT entrando, por exemplo, no coração do Nordeste, Recife, que deixa uma administração-símbolo do PFL e substitui um padrão conservador – Roberto Magalhães – pelo perfil de um ex-metalúrgico. O eleitor brasileiro está dando provas de maturidade. O País foi fatiado em partes quase iguais por cinco partidos, o que denota a vontade do povo em descentralizar o poder.
O crescimento da base oposicionista forçará o adensamento da base governista. Divididos, com candidaturas próprias, os grandes partidos estariam facilitando a vitória de uma oposição unida no pleito de 2002. Uma conclusão pode ser tirada: a aposta no novo deixa a imagem de Lula esfumaçada. Ou seja, Lula encarna o perfil de um líder desgastado (em função das sucessivas tentativas eleitorais), mesmo que seja ainda o principal ícone do PT. Ciro Gomes, com seu PPS em crescimento, é, depois de Lula, quem dispõe de maior capital individual de votos. A derrota no Ceará logo estará enterrada no baú das coisas passadas. Será um candidato de muito peso, voto e densidade discursiva. Precisará de tempo de mídia eleitoral, o que pressupõe a busca de alianças com partidos mais fortes ou com o agrupamento de pequenos partidos.
A maior surpresa foi a vitória de César Maia, que reaparece na cena política como um dos maiores cabos eleitorais de Ciro Gomes, no Sudeste. O maior abalo foi a derrota do pefelista Roberto Magalhães, em Recife, que arranha as imagens do vice-presidente Marco Maciel (PFL) e do governador Jarbas Vasconcelos, do PMDB. Tasso Jereissati, o governador tucano do Ceará, também fica com o bico ferido. Itamar, o exótico governador de Minas, pode exibir apenas dois apoios sem muita expressão, as vitórias do prefeito de Juiz de Fora (Tarcísio Delgado) e de Uberlândia (Zaire Rezende). Ou seja, passou em branco. Brizola está quase fora do arco político. Arraes é uma sombra. Mário Covas, este sim, leão ferido, mas não abatido, primou pela ética, compromisso moral e despreendimento ao apoiar Marta Suplicy. Fernando Henrique também ficou no limbo mas sua política ajudou a vitória do PT em Recife (a campanha teve um discurso federalizado).
No campo dos vereadores, a base maior é do PMDB, vindo o PFL em segundo, o PSDB em terceiro, o PT em quarto e o PPB em quinto. Esse será mais um obstáculo a ser superado pelo PT para conseguir implantar seus programas. A moldura política nunca esteve tão equilibrada.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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