Eleições limpas
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de agosto de 1998
Hélio Doyle 
Pode até dar em nada, mas quatro personalidades muito importantes estão às voltas com a Justiça por causa de abusos que podem ter cometido em suas campanhas eleitorais: dois franceses, o presidente Jacques Chirac e o ex-primeiro-ministro Alain Juppé, e dois norte-americanos, o presidente Bill Clinton e seu vice, Al Gore.
A bem da verdade, sobre Clinton, por enquanto, existem apenas acusações de seus adversários republicanos, que exigem a abertura de investigação oficial para apurar as responsabilidades do presidente. A procuradora-geral Janet Reno tem resistido, talvez diante do trauma do caso Lewinsky, e por isso está sofrendo uma acusação de desacato ao Congresso.
Talvez para aliviar a pressão dos republicanos contra ela, Janet Reno determinou a abertura de investigação preliminar sobre ilegalidades no financiamento da campanha eleitoral de Clinton e Gore em 1996. O acusado formal não é Clinton, mas Gore - poucos duvidam, porém, que Clinton acabará sendo indiciado e que Janet não escapará de nomear um promotor especial para o caso.
As denúncias de que Clinton e Gore cometeram ilegalidades na arrecadação e na aplicação do dinheiro para a campanha vêm sendo feitas há três anos. A essência da acusação contra Gore é de ter autorizado o uso de dinheiro destinado à campanha (hard money) para gastos do Partido Democrata (soft money).
O ex-primeiro-ministro Juppé é acusado de ter contratado irregularmente, para a Prefeitura de Paris, pelo menos quinze pessoas - fantasmas que trabalhavam mesmo era na campanha eleitoral do presidente Jacques Chirac. Pelo menos quinze, mas fala-se que cerca de 300 militantes ganhavam pela Prefeitura para trabalhar na campanha. Chirac, na época, era o prefeito de Paris e há documentos com sua assinatura autorizando as contratações.
Há menos de dez anos, o Partido Socialista viu-se envolvido em acusações de financiamentos ilegais de campanha. Agora, é a vez de seus adversários da neogaullista Reunião pela República (RPR) enfrentarem as acusações, que não se limitam aos empregos-fantasmas. Há denúncias de tráfico de influência, desvio de dinheiro e fraudes eleitorais.
E assim dois presidentes de duas potências, Clinton e Chirac, podem se ver obrigados a esclarecer possíveis irregularidades em suas campanhas eleitorais. Um vice-presidente (e candidato à Presidência dos Estados Unidos no ano 2000) e um ex-primeiro-ministro já estão arrolados em investigações judiciais.
No Brasil, uma legislação deficiente e condescendente permite que se cometam irregularidades maiores sem que ninguém seja responsabilizado por elas. Arrecada-se dinheiro para as campanhas sem qualquer controle da sociedade (que fica sabendo quem contribuiu três meses depois), os tais fantasmas podem ser encontrados em qualquer esquina de Brasília e usa-se e abusa-se da chamada máquina do Estado para ajudar reeleições.
Nos Estados Unidos e na França também há práticas ilegais nas campanhas eleitorais, mas pelo menos procura-se investigá-las. É alguma coisa.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília


