A propósito do debate sobre a responsabilidade social dos empresários nas eleições, a questão que sempre parece surgir é como as empresas usam o seu poder e quais as implicações sociais e políticas desse uso. Graças à sua posição central no funcionamento da sociedade de mercado e aos recursos de poder que pode concentrar e usar politicamente, as empresas criam as condições para a autopreservação sob determinado padrão de relações com outros atores sociais. Ao mesmo tempo, o conteúdo e os valores que formam este padrão de relações definem com cada vez maior peso as chances de se alcançar uma sociedade desejada, por exemplo, mais justa e democrática.
A grande novidade desse período eleitoral é o engolfamento escancarado da política pela economia de mercado. Com a ascendência das teses liberais, o desproporcional poder de intervenção do setor econômico nos processos políticos, talvez, nunca tenha sido tão marcante a despeito de suas implicações para o agravamento da miséria humana e da degradação ambiental. As relações entre o bem coletivo e a valorização de capitais inverteram-se drasticamente, suas fronteiras movem-se irracionalmente quase que exclusivamente ao sabor das marés de um voraz e irresponsabilizável mercado.
A debilidade das instituições brasileiras torna os efeitos desse processo mais deletérios. Em nossa cultura política os limites entre público e privado sempre foram bastante escorregadios e a corrupção tão familiar para designar os processos que definem o interesse público. Embora quase sempre atribuída ao setor público, o status de instituição e a legitimidade da corrupção são tamanhas que ela já passou a ser quase um traço constitutivo da natureza dos negócios privados em alguns setores.
É na eleição que os pactos, pelo menos os mais importantes, são selados. Aqui, a ''caixa preta'' do financiamento das campanhas, origem de inúmeros escândalos em vários países, é o mapa dos compromissos. O Estado não só continua sendo um consumidor excepcional como é o principal viabilizador do lucro de diversos setores. O tráfico de favores vai além das licitações viciadas ou inexistentes e dos superfaturamentos, incluindo desde a garantia política-administrativa que inviabilizam o controle público e a exposição à concorrência de atividades econômicas até o perdão de dívidas e a tolerância à sonegação fiscal. A promessa ou manutenção do emprego pode estar condicionada à vitória e mesmo à derrota de certo candidato. Fornecedores, clientes, sindicatos, ongs, e beneficiados por projetos sociais são mobilizados para assegurar a continuidade de laços que se viabilizam econômica e politicamente no acesso privilegiado aos recursos públicos.
Setores empresariais também já reconhecem nas eleições o momento cardeal da corrupção política e do desvirtuamento do público. Resultado disso são as manifestações de apoio a movimentos pela ética na política, a campanha Voto Limpo 2002 da Transparência Brasil, e a criação da Cartilha sobre Responsabilidade Social e Eleições do Instituto Ethos. Mesmo que ainda sejam restritos o conhecimento e a adesão a estas iniciativas, elas fortalecem o debate público e a definição de novos parâmetros para o julgamento das relações entre empresas, empresários e política.
Não há momento mais importante para reivindicar uma postura empresarial que contribua concretamente para o fortalecimento da democracia e a distribuição mais justa dos recursos públicos. Sem o que, os programas sociais empresariais só confirmam seu caráter pontual e paliativo. Não são apenas as organizações empresariais, como nem todas elas, que têm comportamentos repreensíveis no trato com a coisa pública. Mas a condição de carro-chefe de uma sociedade agonizante tem lá suas responsabilidades - inalienáveis - com o que está acontecendo e com o que vai ser do nosso futuro. A cada eleição, esperanças de uma sociedade mais justa e continuísmos testam-se em meio a uma tensão social expansiva e que a cada pleito parece menos administrável.
BENILSON BORINELLI é professor do Departamento de Administração da Universidade Estadual de Londrina, doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp e co-autor do livro de ''Ética e Responsabilidade Social nos Negócios''

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