Eleições e máfias
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segunda-feira, 10 de março de 1997
Rubem Azevedo Lima 
A descoberta, pela justiça da Itália, de parte do dinheiro sujo que Paulo César Farias, ex-tesoureiro da campanha eleitoral de Collor, desviou dos cofres brasileiros e para guardá-lo nas mãos da máfia italiana lançou dúvidas não sobre a morte de PC - como a imprensa diz - mas sobre o próprio governo que ele ajudou a eleger, em 1989.
Os US$ 200 milhões que teriam sido desviados por PC Farias percorreram um longo itinerário, mas não caminharam por si mesmos, até chegar aos mafiosos que os receberam. Algumas pessoas os movimentaram e, portanto, deixaram pistas, que a polícia poderá rastrear. Os dinheiros ilícitos costumam repousar algum tempo nos paraísos fiscais do Caribe, em bancos mais do que conhecidos. Depois, então, com aparência de depósitos limpos, continuam sua viagem.
Com paciência, as autoridades brasileiras saberão quem ajudou PC, no Brasil e no exterior, a roubar US$ 200 milhões da campanha eleitoral de 1989, de chantagens contra contribuintes ou doações bajulatórias ao candidato Collor, no segundo turno daquele pleito.
Não é improvável, pois, que se chegue ao âmago do esquema financeiro que elegeu Collor. O problema, no caso, é impedir que as investigações - capazes de atingir áreas importantes e de alta sensibilidade - acabem em pizza, como se diz que acontece nas CPIs.
A apropriação das sobras de campanha eleitoral, no Brasil, se faz sem nenhum constrangimento, ficando, porém, sempre fora das declarações de rendas. A filha do ex-presidente Jânio, num momento de desavenças com o pai, acusou-o de depositar na Suíça o que não gastara na eleição por ele disputada à prefeitura paulistana. Os maliciosos, referindo-se ao padrão de vida de Jânio, autor de um dicionário encalhado de Língua Portuguesa, diziam que ele vivia, espartanamente, às custas dessa obra.
Recentemente, a TV Globo esmiuçou a vida de Collor em Miami e descobriu, ali, um palacete em final de construção, supostamente de sua propriedade. Collor reagiu irado, ameaçando processar seus detratores, mas não disse como se mantinha, nas longas férias americanas.
Quem sabe se as pistas deixadas por PC Farias não fazem o ex-presidente antecipar sua volta à casa da Dinda ou às praias de Maceió? Como vai estourar essa nova bomba político-policial?
O ponto fraco dos recursos ilícitos consiste em movimentá-los nos bancos ou em fruí-los, após estourá-los algum tempo, sem despertar suspeitas. O anão orçamentário João Alves dizia acertar sistematicamente na loteria, mas, na verdade, sua mina de ouro era o Orçamento da União.
Seja como for, a descoberta da conexão italiana de PC Farias, no instante em que o País revolve a lama dos precatórios, no Senado, é uma nova novela policial, diversionista - quem sabe? - mas que promete grande suspense. Mais uma vez, infelizmente, a política brasileira vai para as páginas policiais.


