Impressionante a sisudez, a insensatez e as trapalhadas de quase todos os candidatos, em todo o Brasil, em todas as eleições, para todos os cargos. Candidatos a deputado comportam-se, contorcem-se e agem como se fossem postulantes à presidência da República; candidatos à Presidência sobem no pedestal da desinformação, sedentos de penetrar no reino da mágica, e de lá gesticulam e assinam como se imperadores empossados fossem. De bomba atômica até milhões de empregos, num passe de fantasia. E a tempestade de promessas e de papéis encharca nosso dia-a-dia, induzindo mais o nojo do que a indiferença.
Tudo em nome da cidadania, da honestidade, da saúde, da educação e do progresso; o lado oculto disto é que não se determina o progresso de quem e de quantos, se tem parentes e amigos no meio etc. Obras faraônicas e altissonantes aparecem como maravilhas, que o computador traduz em beleza, como redentoras do amargo do cotidiano; com tantos recursos financeiros para tais, que não haverá mais ninguém desempregado, desfavorecido e abandonado. É a apoteose e o zênite de Sua Majestade, o Pobre. Isso mesmo, o pobre está sempre feliz e risonho no centro da briga dos pretendentes aos cargos públicos. Pobre, em época de eleição, dá até autógrafos e agenda comícios!
O uso e o abuso da medicina, da saúde, da assistência médica e assuntos afins já de muito tempo decolaram do irreal e do fantástico para alcançar o inalcançável e o irresponsável. Temos absoluta convicção de que 80% dos candidatos não possuem, em seu currículo, a mínima experiência em assuntos hospitalares e médicos. Haja Dom Quixote, hein? E nem querem saber se a cor branca dos esculápios e dos hospitais é sinal de anemia ou de descrença na saúde pública.
Do lado de cá, os médicos ficam naquela do humorista esperando os políticos entrar em cena; estes roubando o mercado de trabalho daqueles, fornecendo um cabedal de historietas, piadas e presepadas, tal as chanchadas e politicadas de todo quilate e calibre. Inventaram, para uso de momento e de eleição, até hospitais de graça e de ponta, colocando todas as facilidades possíveis e pensáveis para encabrestar o eleitor. Os candidatos colocam a coisa para o desgastado e sofrido sufragista com uma sem-vergonhice tão apimentada que, temos absoluta certeza, os melhores administradores americamos pousarão por aqui, para copiar o modelo de saúde forjado e decantado por tanta patriotada.
Trombeteiam, para todos os ouvidos, que nada é tão elementar quanto a construção de novos hospitais, novos postos de saúde, tantos médicos por cada habitante, remédios grátis, hospital grátis e que, neste País, o problema da saúde não existirá mais; pelo menos até passar a maratona eleitoral!
E o médico, qual será sua opinião sobre tanta fanfarronada? E a Associação Médica Brasileira, o que pensa sobre o uso de seus afiliados nas contendas partidárias e eleitoreiras? E os Conselhos Regionais de Medicina, sempre atentos para assegurar uma ação médica decente, ética e responsável, como julgam a manipulação da saúde e da assistência médica pelos candidatos?
São questões pruriginosas que as autoridades do processo eleitoral terão que enfrentar e saber; se não for hoje, será amanhã, para disciplinar, ritmar e cadenciar os partidos e candidatos no caminho do sério, do moderno e do compatível. Não se pode vender Medicina, como se mercadoria fosse, com as moedas do embuste e do suborno. Por enquanto, remediando, para o ainda incurável candidato brasileiro fica a máxima: Medicina de graça não é de boa qualidade e sai muito caro para todos.
- RENZO SANSONI é médico em Uberlândia (MG)

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