O problema da corrupção no Brasil tem origem no período colonial, quando as primeiras câmaras surgiram para defender os interesses do poder econômico, representado na época pelos senhores de engenho. A partir deste momento, se estabeleceu a indistinção entre o público e o privado, que se incorporou à vida política do País.
O assunto foi abordado pela socióloga Eliane Superti, da Universidade Federal do Amapá, que esteve em Londrina para uma série de conferências no Ciclo de Estudos promovido pela representação regional da Associação dos Diplomados na Escola Superior de Guerra.
Eliane afirma que as câmaras municipais de hoje herdaram aqueles ''princípios'', e a mudança deste panorama passa necessariamente pela sociedade, que não pode ser conivente e nem tolerar tanta corrupção.
A corrupção está tão presente na sociedade que as pessoas, às vezes, aceitam como algo normal. Isso não é preocupante?É muito preocupante. Não existe um Estado corrupto com os índices de corrupção que nós temos no Brasil se a sociedade não for permissiva. Os pequenos níveis de corrupção que parecem não atingir, na verdade, apontam para o fato de que a nossa sociedade aceita a pequena corrupção. E isso cria a cultura de que o grande corrupto está correto, de que todos que chegam ao poder público precisam se apoderar disso privadamente.
Como o eleitor pode interferir neste processo?
O nosso papel de cidadão não termina no momento do voto. Ele começa ali. Se votei no sujeito, tenho que obrigatoriamente exigir dele o cumprimento de seu papel como político. Isso significa que ele tem que desempenhar a representação que lhe foi concedida sem tolerar o menor índice de corrupção. Eu tenho que fiscalizar, tenho que acompanhar esse sujeito. Esse é o mecanismo que acredito ser efetivo para acabar com a cultura de corrupção. É muito preocupante quando a gente percebe que a sociedade tolera isso. Nós não podemos tolerar. Somos lesados quando o Estado é corrupto. É preciso que a sociedade assuma o seu papel de fiscal, de acompanhar o poder político.
O fato da sociedade ser tolerante gera a sensação de impunidade?Não é só a sensação. Temos de fato a impunidade estabelecida. A punição é efetiva para aqueles que são das classes populares. A penitenciária existe para os pobres, mas é preciso que exista de fato também para aqueles que cometem os crimes de colarinho branco. Essas pessoas precisam ser presas, pagar por seus crimes e o dinheiro precisa voltar aos cofres públicos. É preciso que nós tenhamos o nosso papel de cidadão exercido plenamente, e não só momento do voto, e que a Justiça cumpra o seu papel. Aí sim, é possível que a impunidade de fato acabe.
A gente poderia dizer que há uma certa promiscuidade na relação da política com o poder econômico?
Com certeza. E como há uma herança bastante pesada de indistinção entre o público e o privado, você acaba percebendo que as pessoas acham natural que se aproprie privadamente do bem público. E essa promiscuidade, o tomar privadamente do público, é como se fosse algo natural, quando não é. É uma relação promíscua, de fato, uma relação que lesa a sociedade como um todo, porque impede que investimentos sejam feitos na saúde, na educação e em atendimento às camadas sociais que mais precisam de políticas públicas voltadas ao seu interesse. Esse dinheiro acaba entrando para o bolso daqueles que não tem necessidade, daqueles que não precisam ser assistidos de maneira tão cuidadosa pelo Estado. Eles lesam a sociedade civil e impedem a melhoria da sua qualidade de vida.
E isso acaba prejudicando até o desenvolvimento do país?
Com certeza. Para que a sociedade ganhe um índice de desenvolvimento que nos coloque no patamar dos países desenvolvidos, é preciso investimento público. É preciso que o Estado se volte para as questões sociais e faça efetivamente a geração de renda. Não basta a política de assistencialismo, de tirar a população da miséria. É preciso criar mecanismos de politização, de geração de renda junto à população. Quando você vê os índices de corrupção e o quanto de dinheiro público é desviado para uso privado, percebe que este Estado perde poder de atuação. E lesa a sociedade sim, impede o seu desenvolvimento social, atravanca o seu desenvolvimento econômico.

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