Este ano promete. Por duas razões. Uma: tem Copa do Mundo. Boa desculpa para acordar tarde, pedir folga, adiar decisões. A outra: é eleitoral. A gente pode dormir sem medo. Na calada da noite, nenhuma MP será editada para taxar aposentados, tirar direitos de segurados dos planos de saúde, sonegar conquistas trabalhistas. Fecha-se o saco de maldades.
E escancara-se o de bondades. Anunciam-se boas notícias a torto e a direito. O salário mínimo ganha aumento superior à inflação. Parlamentares corrigem a tabela do Imposto de Renda em 17,5%. É pouco. Para ser justo, o percentual deveria chegar aos 35,29%.
Mas, na decisão, entrou a filosofia das Alterosas. Senadores e deputados lembraram-se de velha lição da Academia Mineira de Letras. Os imortais queriam dobrar o valor do jeton. Entre um chá e outro, os ânimos se azedaram. Um valentão levantou-se e deu o ultimato: - Ou o dobro ou nada. Num átimo, outro respondeu: - Ou o dobro ou o valor atual.
As gentilezas não param aí. A gasolina baixou de preço. Encher o tanque implicará economia de até 20% por litro. Viva! A crise de energia foi maquiada. Afrouxou-se o racionamento. Estava previsto tarifaço de 30% para 2002. Reduziu-se para 20%. Significa quase seis vezes a inflação prevista. Mas, como diz o outro, é menos pior.
Há mais. Famílias brindadas com bolsa-escola receberão R$ 7 de lambuja. É para subsidiar o gás de cozinha. Agora, o trabalhador não precisará apresentar comprovantes para se aposentar. O ônus da prova ficará com o INSS. E os funcionários públicos? Acabou-se o sofrimento. Depois de sete anos sem reajuste, os barnabés verão o contracheque um pouco (pouquinho só) mais gordo.
Até a bicharada lucrou com a generosidade. No Rio, equinos ganharam direitos trabalhistas. Agora, têm horário de trabalho e folga obrigatória. E éguas – todas, não só as da hípica – gozarão licença-maternidade.
Fala-se em agradecimento. O PTB apresentou proposta de emenda à Constituição. Nela, acena com a senatoria vitalícia. O presidente virou ex? Torna-se senador pro resto da vida. Em ano eleitoral, o povo apita. A pressão popular vai decidir o destino da novidade. É bom cutucar seu deputado. Se você estiver de acordo, diga-lhe. Se contra, também. Fique atento no dia da decisão. Ele precisa de seu voto para se reeleger.
É isso. Em 2002, o dinheiro, mais raro que viúvo na praça, voltará a dar as caras. As indústrias vão produzir mais. O comércio vai faturar. O consumidor sorrirá de orelha a orelha. Isso tudo sem falar nos milhões movimentados pelos candidatos. E depois? Depois é outra história.
DAD SQUARISI é jornalista em Brasília

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