Miguel Ignatios
A proposta de elevar o salário mínimo para o equivalente a US$ 100 por mês a partir de maio próximo, feita pelo PFL, e com o apoio explícito do PT, dá uma idéia e ao mesmo tempo serve de baliza de como serão as eleições municipais deste ano. Por que motivo, deve se perguntar o leitor, partidos políticos tão díspares em seus programas e nos respectivos ideários, como o PFL, do senador Antônio Carlos Magalhães; e o PT, de Lula, de repente, se aliam contra o adversário comum, representado pelo PSDB, de Fernando Henrique Cardoso e de Mário Covas?
A resposta é simples e direta. Tanto o PFL como o PT pretendem dar uma demonstração de força política nas próximas eleições municipais, elegendo o maior número possível de prefeitos e vereadores, com o que estarão aumentando seus cacifes políticos para 2002, quando serão eleitos os sucessores do presidente FHC e dos atuais governadores. Nesse contexto, a aliança do PFL com o PSDB ficou mais fraca e a oposição do PT ao PSDB mais forte. Mas o PFL saiu na frente do PT na questão da elevação do mínimo.
Aproveitando-se de uma promessa, feita durante a primeira campanha de FHC, e até agora não cumprida, a agremiação de ACM e da governadora do Maranhão, Roseana Sarney, deixou o PSDB acuado. Qualquer que venha a ser o resultado desse xeque duplo, os benefícios serão sempre dos pefelistas. Se (hipótese remota) o Planalto elevar o mínimo para cem dólares, o mérito eleitoral será creditado ao partido de ACM, por ter cobrado a promessa; se, ao contrário, o pleito não for atendido, os candidatos do PFL lembrarão do exemplo da correligionária Roseana Sarney, que, a partir de 1º de maio próximo, elevará os salários do funcionalismo estadual para o equivalente a cem dólares.
Pego de surpresa pela ousadia do PFL, ao PT só restou a alternativa de apoiar a idéia, num primeiro momento, para, logo em seguida, depois de alguma reflexão, lutar por um mínimo ainda maior, de US$ 160, de acordo com a média dos outros parceiros do Mercosul.
Em termos de resultados, a estratégia do PFL poderá render-lhe enorme quantidade de novos prefeitos, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, tradicionais bases eleitorais pefelistas, onde, não por mera coincidência, concentram-se os maiores contingentes de mão-de-obra que recebem um mínimo por mês. Para o PT, ao contrário, a bandeira do mínimo forte vai ficar na retórica, já que nos grandes centros urbanos, onde se concentram as bases petistas, pouquíssimos trabalhadores ainda ganham o mínimo.
Mas não foi só nessa questão que o PT ficou atrás do PFL. Recentemente, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, chamou a atenção de um burocrata menor do FMI, que havia criticado a proposta da criação de um fundo contra a pobreza. Imediatamente, o incauto funcionário do FMI pediu desculpas ao governo brasileiro. E o PT, por intermédio do seu presidente, deputado José Dirceu, aplaudiu a bravata do ministro da Fazenda.
O PFL age e o PT aplaude. Só porque neste ano eleitoral o adversário de ambos é o PSDB, o líder petista resolveu ‘‘encher a bola’’ do ministro. Ele esqueceu que Malan tem sido ao longo do Plano Real o mais intransigente defensor do programa do FMI, muitas vezes criticado até mesmo pelo Banco Mundial.
Os próximos lances desse xadrez político poderão esclarecer o que há de verdade por trás das duas especulações que circulam nos círculos palacianos: a primeira (fortíssima) de que o ministro Malan passa a ser peça-chave e preferencial na sucessão de 2002; e a segunda, que aparentemente contraria a primeira, de que a alternativa de mudança do regime presidencialista para um parlamentarismo abrasileirado ganha corpo.

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