Já se tornou chavão dizer que, terminada uma eleição, dá-se início à seguinte. Pois se entre a recondução de Fernando Henrique e sua posse o País experimentou semanas de marasmo - preparavam-se as festas natalinas e o réveillon, e o que importa além disso? - mal nosso presidente sorvia a glória de receber, pela segunda vez, a faixa presidencial e a disputa pela sua sucessão explodia, seu mais ardiloso e astuto rival lançava-se sem clemência sobre seu palácio sitiado.
Faltam ainda quatro, longos quatro anos, e ele está aí - o rival, o homem que não permitiu que Fernando Henrique dormisse em paz desde aquele noite de glória, após despedir-se, gentilmente como bom anfitrião que é, do último convidado especial que foi cumprimentá-lo, no Palácio do Alvorada, pelo início de seu segundo mandato.
Itamar Franco, o rival, conseguiu o que ninguém ousaria - e se tentasse, não conseguiria, por fraqueza de caráter, debilidade política ou carência de astúcia: Itamar pôs em xeque, desde o primeiro minuto, o segundo mandato de Fernando Henrique e, seja qual for o desfecho da crise provocada por ele com a decretação da moratória de Minas Gerais, seu desafio está lançado, e mesmo que tenha de recuar mais tarde (o que não é de seu feitio), quem tem o domínio do jogo é ele, quem está no ataque é ele.
Seu desafio está lançado - os Estados estão em situação de penúria, não conseguem honrar seus compromissos devido às altas taxas de juros, não suportam mais o estrangulamento financeiro em que se encontram devido a inúmeros fatores, e a política econômica recessiva imposta pelo governo federal é, sem dúvida, o principal deles, e estão ansiosos para afrouxar o grilhão da dívida para voltarem a crescer. E se os Estados tiverem mais recursos para investir em infra-estrutura, a economia receberá doses salvadoras de oxigênio, haverá mais postos de trabalho, haverá mais moeda circulante - haverá, enfim, mais dinheiro em caixa, pois a arrecadação aumentará.
A lógica é perfeita, embora o momento escolhido por Itamar possa não ter sido o ideal, porque o País ainda amarga os efeitos do crash do ano passado. No campo político, porém, quem é que tem reinado nas manchetes dos jornais, quem tem centralizado o noticiário do rádio e da TV, quem tem sido o centro das atenções? É ele, Itamar, um governador, e não Fernando Henrique, o presidente. É ele, Itamar, quem eriçou os governadores de oposição e alarmou os que apóiam o presidente, que, aliás, estão reunidos em São Luís para delinear uma estratégia que abafe o incêndio deflagrado pelo colega mineiro.
E o presidente? Sai de férias, refugia-se em Mangue Seco, um paraíso ecológico entre a Bahia e o Sergipe. Itamar, apesar do cofre seco, reina absoluto, abala o mercado financeiro mas finca uma bandeira, mobiliza a classe política e a opinião pública, consolida sua imagem de turrão, e ao mesmo tempo, de um político preocupado com a retomada do crescimento econômico, que fez de seu governo, quando presidente da República, um exemplo de moralização e de administração públicas.
Ainda faltam quatro, quatro longos anos para próxima eleição, e até lá muitos títulos da dívida pública hão de passar por baixo da ponte - e, se até lá Fernando Henrique não tiver consertado a economia, sairá humilhado de seu segundo mandato e criará as condições para a recondução à Presidência de quem, hoje, surge como seu principal adversário, mais forte e poderoso que todos os Lulas e Brizolas para arrebatar dos tucanos a faixa presidencial. Itamar, eis o homem!
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é jornalista da Folha

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