Einstein tinha razão - Maria Lucia Victor Barbosa
Einstein tinha razão
Maria Lucia Victor Barbosa
O debate com estudantes universitários é curioso e salutar, mas não é fácil, como aliás não o é com qualquer público. Primeiro, o professor precisa dominar razoavelmente o assunto que vai abordar, sob pena de se desmoralizar perante a platéia. Segundo, o tema deve ser importante, cativante e envolvente o suficiente para motivar a discussão. Terceiro, o professor deve ter consciência da monumental desinformação que grassa paradoxalmente nesta era da informação, inclusive na universidade, e que abrange desde os temas mais profundos até os mais banais.
Para contornar tais dificuldades, o professor deve se munir de paciência pedagógica, e utilizar toda sua capacidade de comunicação a fim de desencadear na platéia entusiasmo e interesse. Se isto também não é fácil, o fato é que a aula tradicional, linear, sonolenta, só conduz ao tédio. E assim, ao lado das teorias fundamentais, o professor de hoje tem por obrigação pelo menos tentar atenuar a monotonia que a repetição das necessárias regras, fórmulas ou doutrinas, produz.
Em suma, um mestre tem sempre diante de si a hercúlea tarefa de ensinar a pensar, e que em última instância pode ser sintetizada no binômio: difundir o conhecimento existente, que vem do passado e não precisa ser reinventado; e recriar novo conhecimento, relativo aos fatos e problemas do presente para poder preparar adequadamente o futuro.
Se isto não é feito, ou seja, se imaginação e raciocínio não são acionados nas salas de aula, as consequências não são nada auspiciosas. O pobre professor fica sem meios de enfrentar seus mais poderosos adversários: a televisão e os shopping centers, estes grandes atrativos da mocidade. Quanto aos alunos, aturam como podem enfadonhas aulas, compactuando com a simulação do aprendizado apenas para, ao final de intermináveis anos, receber o almejado diploma, tido ilusoriamente como chave mágica capaz de abrir as portas das oportunidades profissionais.
Temas do nosso tempo, contudo, não faltam, para de quando em vez entremear as apresentações clássicas que se fazem normalmente nas aulas. Vão desde a mais angustiante questão deste final de século, desemprego, até reflexões sobre arte, meios de comunicação, partidos políticos, ideologias etc. Mas em todos os questionamentos, não importa quais sejam, vale uma regra básica: a liberdade de opinião. A partir dela, todos têm direito de se expressar sem temer críticas ou censuras. E isto significa que deve prevalecer o respeito mútuo entre os debatedores.
Somente a partir dessa didática da liberdade se poderá produzir o conhecimento adequado às necessidades sociais. Ao mesmo tempo, o hábito do raciocínio rápido é o exercício que facilitará o acompanhamento da velocidade de nossa época, que no campo da ciência também é fantástica.
Completando estas breves reflexões, pode-se ainda acrescentar que, mesmo sendo de imensa utilidade e alcance todos os recursos didáticos existentes na atual era tectrônica - como, por exemplo, o acesso à internet com suas incríveis possibilidades de pesquisa - será necessário desenvolver adequadamente os cérebros que contatarão com esses aparatos de informação. Caso contrário, estas serão acionados automaticamente, sem maior profundidade de compreensão.
Ora, a universidade é o lugar privilegiado para se empreender de forma sistemática o aprendizado de um determinado tipo de conhecimento, a fim de aplicá-lo posteriormente numa profissão previamente escolhida. Para atingir tal objetivo é que as pessoas procuram esta instituição. O problema é que dificilmente a universidade responde de forma adequada às aspirações de aquisição de conhecimento, e consequente preparo profissional. E se tal coisa acontece, causada por uma série de fatores abundantemente citados em vasta literatura, ninguém se lembra de afirmar que em grande parte a universidade brasileira está aquém de suas funções e resultados porque lhe falta imaginação.
Acontece que exercitar a imaginação nunca foi fácil, sendo que tal exercício em termos superiores sempre pertenceu aos verdadeiros escritores, artistas, inventores e líderes políticos. E hoje, com as facilidades trazidas pelas conquistas da tecnologia, a grande massa mais do que nunca se acomodou. Pudera! Obtemos quase tudo com um simples pressionar de botão. Aperta-se um deles e um fiat lux, miniatura do ato bíblico divino, enche de brilho a sala antes em trevas. Tecla-se alguns outros, e a pizza encomendada é trazida a domicílio. Pressiona-se mais um, e o mundo é despejado pela televisão diante do sofá da sala de visitas. Digita-se uns tantos outros, e na tela do computador um acachapante conhecimento se descortina.
Se por um lado isto demonstra uma grande evolução propiciada pelos poucos imaginativos, por outro conduz a uma maior acomodação da maioria. Quase tudo vem pronto. Já não se precisa tanta imaginação para transpor os obstáculos, que no passado às vezes infernizavam o cotidiano das pessoas através de penosos esforços, obrigando-as a exercícios de imaginação para superá-los.
Neste contexto, a universidade também foi se acomodando. E no seu inevitável processo de massificação, banalizou-se. Poucas destas instituições em todo o mundo conseguem ser centros de excelência, de recriação e adaptação de conhecimento, portanto, geradores de progresso. À maioria delas falta imaginação. Entretanto, o professor que utilizar métodos criativos, poderá se surpreender. Ainda uma noite destas, debati com os meus alunos a propósito do êxito efêmero dos modismos de má qualidade. O assunto surgiu de uma crítica ao que se chama hoje de teatro, e acabou num esforço imaginativo em busca das essências ligadas à estética e à ética. Naquele momento constatei que Einstein tinha razão: A imaginação é mais importante do que o conhecimento.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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