Einstein, mais místico que cientista
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de janeiro de 1997
Walmor Maccarini 
Identificamos mais facilmente Albert Einstein por aquela célebre foto dele com a língua de fora (captada na festa dos seus 72 anos) e pela sua branca e desalinhada cabeleira, mas poucos sabem que o genial matemático, um homem religioso (sem no entanto professar religião nenhuma), alegre e bom, que tocava piano e violino, era antes de tudo um místico. Sua célebre Teoria da Relatividade (analiticamente pouco compreendida) talvez não seja o mais importante referencial de sua vida, e sim a sua permanente sintonia com o universo cósmico, de onde lhe chegavam intuitivamente todas as respostas.
Eu penso 99 vezes e nada descubro; deixo de pensar e mergulho no silêncio, e eis que a verdade me é revelada. Isto é de Einstein. Ele afirmava que tudo pode ser captado pela intuição e que a diuturna focalização do Uno (a consciência cósmica) abre os canais e revela todo o universo dos efeitos. Ele se estribava no pensamento intuitivo e não no meramente analítico. E certa vez revelou que as coisas lhe aconteciam como uma iluminação súbita, quase um êxtase. Para Einstein, Deus era a Lei, a voz da natureza.
Desde jovem ele tinha uma revolta contra as autoridades. Alemão de origem judaica e refugiado nos Estados Unidos nos últimos 20 anos de sua vida (fugindo da perseguição de Hitler), perguntava por que a sinagoga, a igreja e o próprio governo não diziam a verdade sobre Deus, sobre o mundo e sobre o homem! Que intenções secretas - indagava - tinham as autoridades civis e religiosas para manter o homem nessa ignorância?
Os fatos (os efeitos) devem ser analisados, mas a Realidade (a emanação de Deus) nos é revelada - ele ensinava.
Einstein assim intuia: há uma única Fonte, e ela se esparrama sobre nós se estivermos em sintonia, receptivos.
Porque meditar não é pensar, mas esvaziar os canais de toda a substância oriunda dos nossos sentidos e colocar-se diante da plenitude da Fonte.
Penso 99 vezes e
nada descubro. Entro
no silêncio e a
verdade me é revelada
Quando o discípulo está pronto o mestre aparece!
Lá estava um homem cujo corpo ainda vivia na Terra mas cuja mente habitava as mais remotas plagas dos Cosmos - escreveu o filósofo brasileiro/catarinense Huberto Rohden, que conviveu com Einstein na universidade americana de Princeton.
Tão desprendido das coisas do mundo era o genial cientista que certa vez sua empregada encontrou um cheque de elevado valor, com grande atraso, marcando a leitura de um livro. Muitas vezes ele não se lembrava se já havia almoçado e não sabia o número do seu telefone e de sua própria casa. Dizia-se dele que não se perderia no espaço cósmico, mas sabe-se que tantas vezes perdeu o rumo de sua própria residência. Era um distraído-concentrado, porque vivia mentalmente mais no grande Além.
Numa entrevista à revista Time Einstein revelou nunca ter feito experiências empírico-analíticas para descobrir a Teoria da Relatividade, mas que ela lhe veio por intuição. Para ele, a certeza intuitiva era anterior a qualquer prova.
O autor Robert Clark perguntava-se repetidas vezes por que um cientista como Albert Einstein falava tanto em Deus, embora os teólogos o considerassem um ateu, porque ele não admitia um Deus pessoal, mas um Deus supremo, onipresente e onisciente, que está no centro de todos os lugares e de todas as coisas, como já o intuira Santo Agostinho, fazendo (a Einstein) sentir-se em meio a uma grande fraternidade universal, sendo essa fraternidade e consubstanciação do próprio Uno, da Cosmo-Consciência, em síntese Deus. Para o iluminado matemático, Deus não era uma personalidade, capaz de premiar ou punir, mas a Invisível Realidade do Universo.
É óbvio que Einstein, não obstante sua entrega à intuição, trabalhou a vida inteira na teoria do campo unificado (a unidade e identidade de todas as energias e a inexistência de tempo e espaço), porém ele considerava esses esforços como preliminares, o pensar 99 vezes... até que a resposta lhe chegasse intuitivamente, ou seja, até a perfeita sintonia da Fonte, o silêncio-dinâmico onde tudo já está pronto e acabado.
Certa vez o professor Ernst Mach, da Universidade de Viena, propôs a Einstein que os cientistas partissem do ponto zero e não aceitassem mais nada que não fosse provado experimentalmente. Einstein meneou a cabeça, em sinal de desaprovação. Porque ele farejava algo mais além dos sentidos! Isto é que fazia do sábio cientista um homem religoso, re-ligado, porque religião quer dizer re-ligação (do homem com o Poder Infinito, com a Fonte plena, com a alma do Universo). Algo que Einstein não buscava decifrar, mas intuia e isto lhe bastava.
O homem pode não achar Deus, mas Deus o achará. Se o homem, naturalmente, não esconder-se dEle.
Einstein era uma pessoa feliz, amigo de todos, que amava as crianças (tinha mulher e dois filhos) e ficava horas tocando violino à cabeceira da cama de uma tia doente.
Este fantástico matemático e metafísico nunca se considerava um homem excepcional, detestava a mesquinharia, a brutalidade, o militarismo, a guerra. Justamente por isso cultivava uma simpatia peculiar pela América Latina, sobretudo pelo Brasil, onde tinha parentes por parte da mãe. Rohden escreveu que Einstein sentia que a América Latina era, entre todos os povos, a parcela da humanidade que preservara, inadulterada, a alma humana e cristã.
Albert Einstein dizia que a coisa mais bela que o homem pode experimentar é o mistério. Porque esta emoção está na raiz de todas as coisas.


