Escreveu Carlos Rangel na sua obra clássica ‘‘Do bom selvagem ao bom revolucionário’’, que ‘‘a história da América Latina, no século XX, prolonga a contradição que lhe deu origem. Oscila entre as falsas revoluções e as ditaduras anárquicas, a corrupção e a miséria, a ineficácia e o nacionalismo exacerbado’’. O livro que foi escrito em 1976, portanto há 25 anos, continua atual. Isto porque, para usar uma expressão do filósofo Julian Marías, continuamos a viver em ‘‘estado de erro’’, um erro que inclui culparmos tudo e todos pelo que somos, especialmente os Estados Unidos, cujo êxito quase intolerável para nós, faz-nos amargar secretamente nossos intermináveis fracassos.
Rangel acredita também que, por vários fatores como língua, origem portuguesa, forma de conquista e colonização, integração da metrópole com a vinda de Dom João VI, independência por decreto e sem rupturas traumatizantes com Lisboa, consolidação em uma única e gigantesca nação, o Brasil pode ter um parentesco ou pontos em comum com a América Espanhola, mas que nossas diferenças levam de vencida as afinidades. Para nossos vizinhos seríamos vistos como um primo, e não um irmão, que seria tão amigo quanto perigoso e, de todo modo, diferente.
O jornalista venezuelano não deixa de ter lá suas razões quanto às diferenças que nos fazem ‘‘o outro’’ diante das nações erigidas sobre civilizações evoluídas como a dos incas, dos maias e dos astecas, e sob o jugo colonial espanhol. Mas nossos pontos em comum também existem, e nos dotam de uma visão de mundo parecida. Entre esses pontos podemos citar, por exemplo, o nacionalismo que beira à xenofobia, especialmente quando se trata dos Estados Unidos; a dependência de um Estado centralizador e excessivamente burocratizado; o pendor para revoluções equivocadas e fracassadas; o populismo; o nepotismo; a tendência à corrupção, o que inclui a esperteza e a viveza criolla; as democracias oligárquicas e contraditórias.
Todas essas afinidades e outras mais que se queira citar, sempre nos conduziram, e a nossos vizinhos de origem espanhola, às chamadas ‘‘forças desintegradoras’’, que geralmente passam pela inflação, pelo desemprego, pelos períodos de depressão, pelas denúncias de corrupção, pelos gastos exagerados e ilegais dos governos, pelas manifestações populares muitas vezes tangidas pelas chamadas esquerdas (pois na América Latina é de bom-tom ser de esquerda), pela marcante influência da Igreja Católica.
Pois bem. No mundo globalizado em que vivemos, onde as fronteiras comerciais se diluem, em que pese a manutenção das características nacionais de cada Estado, as afinidades latino-americanas muitas vezes se aproximam e se confundem, o que não impede de aflorarem conflitos de interesse entre um país e outro. De qualquer forma, essas economias frágeis se fortalecem ou enfraquecem mutuamente e, assim, o que afeta uma pode levar de roldão a outra.
No momento, o assunto em relevo na nossa imprensa diz respeito à Argentina, tradicionalmente o país latino-americano rival do Brasil, coisa que se espelha até no futebol. Os jornais não têm poupado críticas ao ministro da Economia, Domingo Cavallo, e a grande preocupação aqui é com a crise de lá. Parece até que somos governados não pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, mas por Domingo Cavallo. Mas até que ponto age a profunda associação de ‘‘forças desintegradoras’’, que nos fazem temer o conhecido efeito Orloff, ‘‘eu sou você amanh㒒?
Seria interessante, então, fazer algumas perguntas para se chegar a conclusões mais realistas: quando eles iam bem, nós estávamos bem por causa deles? Quem começou a desgraça mútua, nós ou eles? Se a crise energética fosse na Argentina, será que nossa imprensa reagiria histericamente? Se somos tão ligados, foram nossos males mais recentes, como as denúncias continuadas de corrupção e a sistemática oposição ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso com o nítido intuito de desmoralizá-lo, que levaram os argentinos à crise em que se encontram, ou foi seu governo que gerou nossas mazelas atuais? Será que no Brasil os juros elevados, a corrupção geral, o aberrante protecionismo, os impostos absurdos, a crise energética burra, são culpa do ministro Cavallo, ou será que estamos precisando de um bode expiatório para desviar a atenção dos nossos próprios dilemas?
Claro que o que acontece aqui está ligado ao que sucede mais adiante, o que inclui o mundo inteiro e não apenas nossos ‘‘primos’’ próximos. E é evidente que as medidas cambiais da Argentina nos afetam, como ao restante da América Latina. Há toda uma interação altamente complexa, política e econômica, que traz abalos recíprocos, sendo que no caso da Argentina o efeito Orloff é por nós sempre temido por conta de experiências passadas.
Mas acredito que seria exagerado jogar sobre a Argentina toda a responsabilidade pelos nossos problemas. Como escreveu em recente editorial em ‘‘O Estado de S. Paulo’’, o economista Roberto Macedo: ‘‘Para evitar o efeito de outras crises, argentinas ou não, nosso maior empenho deve ser na superação da vulnerabilidade externa de que o Brasil padece. Sem exportar mais, depender menos de empréstimos e financiamento do exterior, e sem fortalecer nosso cobertor de reservas, vamos continuar indefesamente expostos às frentes frias que vêm de fora.’’
Lembremos também, que mesmo antes do inverno chegar, uma frente fria interna já nos assolava, e continuará nos assolando. Ela está ligada à sucessão presidencial e é um fator bastante preocupante para os rumos de nossa economia. E essa frente fria, que nada tem a ver com qualquer efeito Orloff, pode gerar um efeito caipirinha que é uma gelada de dar medo.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina
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