Estudo apresentado por pesquisadores brasileiros na Conferência do Clima em Copenhague, na Dinamarca, apontou a pecuária como responsável por metade das emissões de gases do efeito estufa no Brasil. As três fontes de emissão seriam o desmatamento para abertura de pastagens, as queimadas para manejo e o metano exalado pela fermentação de biomassa no estômago dos animais.

Segundo os cientistas informaram à Agência Estado, a pecuária emitiu cerca de 1 bilhão de toneladas de gases do efeito estufa (GEEs) em 2005. Isso equivale a metade das emissões totais do País naquele ano (2 bilhões de toneladas), ou um pouco menos da metade (2,2 bilhões de toneladas). A outra metade refere-se a emissões do setor energético, industrial e de outras atividades do setor agropecuário.

O documento indica que a Amazônia e o Nordeste seriam as regiões brasileiras mais vulneráveis às mudanças climáticas. ''Estima-se que as mudanças climáticas resultariam em redução de 40% da cobertura florestal na região sul-sudeste-leste da Amazônia, que será substituída pelo bioma savana'', aponta o estudo. No Nordeste, a redução de chuvas causaria perdas na agricultura e reduziria a capacidade de pastoreio de bovinos de corte.

Segundo o estudo, as modificações genéticas seriam alternativa para reduzir os impactos das mudanças climáticas na agricultura, o que exigiria investimentos em pesquisa da ordem de R$ 1 bilhão por ano.

Para o presidente da Associação Nacional dos Produtores de Bovinos de Corte (ANPBC) José Antonio Fontes, a discussão sobre o impacto da atividade econômica no clima é ''ideológica.'' ''Não precisa ir para a Amazônia para fazer carne. Para se fazer carne de qualidade precisamos de tecnologia'', ressalta.

Como o senhor avalia o estudo que aponta a pecuária como responsável por metade das emissões de gases do efeito estufa no País?
Acho isso um exagero. É jogar tudo nas costas da pecuária. O desmatamento não é só para a pecuária, é para assentamento, para madeira, para agricultura. Creditar isso é um absurdo até porque a maioria do gado produzido no Brasil não está na Amazônia. Nesse momento, em que está havendo essa discussão toda, até certo ponto, ideológica, nós temos que ter muito equilíbrio. As pessoas esquecem que a necessidade de alimento é maior do que a produção.

Os pecuaristas pensam em diminuir essa emissão?
Não tem necessidade de diminuir. Nós já estamos falando há mais de um ano que não precisamos derrubar uma árvore para dobrar a produção da pecuária ou da agricultura no Brasil. Existe hoje tecnologia desenvolvida e pronta para utilizar que faz com que isso ocorra. Mas para que dobrar a produção de alimentos em cinco anos se não tem preço?

Os cientistas consideram que a melhoria da qualidade das pastagens, da genética e da alimentação poderia aumentar o número de cabeças por hectare, reduzindo a área ocupada. Isso é viável?
Não só é viável como já fazemos. Não precisa ir para a Amazônia para fazer carne. Para se fazer carne de qualidade precisamos de tecnologia. Antes se levava quatro anos para abater um boi. Nas regiões mais desenvolvidas se leva 24 meses. Isso é redução de gás metano. Agora na Amazônia se desmata, coloca um boi lá para garantir a propriedade da terra que não é titulada. Isso não é produção de pecuária, isso é especulação. Por que não se fala no efeito estufa dos países que consomem gás natural, carvão, xisto e petróleo para fazer energia? Os Estados Unidos e a China são os maiores consumidores de energia a carvão. No Brasil estamos muito à frente. Temos o menor custo de produção de pecuária e temos volume, que podemos multiplicar porque temos tecnologia, clima e área.

E essa tecnologia toda está disponível para o pequeno produtor?
A tecnologia está tão disponível para o pequeno quanto para o médio ou o grande produtor.

Mas e em termos de custo?
É o mesmo para qualquer um. Por que ela não chega aos pequenos? Cadê a extensão rural dos governos? Cadê a Emater? Precisa haver uma interação entre governo, iniciativa privada e informação ao pequeno e médio produtor. O produtor precisa ser informado e ter acesso ao conhecimento.

Há uma tecnologia de aproveitamento do gás metano. Já está sendo utilizada?
Em avicultura está disponível, na suinocultura é utilizada, até para produção de luz. Na bovinocultura de corte é um pouco diferente, os animais estão soltos, não é como no Hemisfério Norte, onde o boi é criado estabulado. Nós usamos a matéria orgânica no campo. Não podemos esquecer que a fotossíntese é uma transformadora de carbono.

Há pecuarista já atuando no mercado de carbono?
Todo mundo está interessado, mas me aponte alguém que assinou um contrato. Não só pecuarista, qualquer um, todo mundo está interessado, mas cadê o contrato? Existe todo um trabalho, fazem palestras, mas não apresentam um contrato. É muita conversa e pouca realidade. Tem que transformar essas coisas em realidade.

O produtor hoje está interessado na questão ambiental?
Muito interessado. Na última Exposição (Agropecuária e Industrial) da Sociedade Rural esse foi um dos temas que mais lotou os auditórios. O produtor não só está interessado do ponto de vista da responsabilidade, mas também considera uma grande oportunidade. Vai ser necessário uma consciência na sucessão (no comando dos negócios) para ter essa visão e esse compromisso em fazer a produção em maior escala por área e observando todas essas questões ambientais.

Dá para equilibrar as duas coisas?
É possível e economicamente viável, desde que haja uma integração de investimento da iniciativa privada e do setor público em geral. Hoje você tem formas de aumentar a produção agrícola, produzindo mais por área e ampliando a produtividade por planta. A tecnologia existe. Basta ter vontade política e parar de fazer discurso.

mockup