A economia brasileira já não está tão próspera quanto era esperado. Depois da notícia do crescimento de apenas 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) nos primeiros três meses do ano, em grande parte por causa da queda dos investimentos, um estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) apontou que as empresas vão investir R$ 35 bilhões a menos em quatro anos, uma retração que já preocupa o governo.
Segundo o BNDES, o Brasil deve ter R$ 579 bilhões em investimentos em oito setores industriais entre 2012 e 2015, valor 6% menor que os R$ 614 bilhões estimados no ano passado para o período 2011-2014. Certamente, as empresas de transporte rodoviário de carga também estão inseridas nesta previsão.
Estamos vivendo os efeitos da retração do mercado de caminhões, que estão se espalhando pela cadeia produtiva do setor. A freada nas linhas de montagem está se refletindo em queda nas encomendas para as empresas que fornecem peças e componentes às montadoras. Além disso, a redução nas vendas desses veículos diminui a demanda por implementos rodoviários. Assim, vamos vivendo um efeito dominó.
Isso porque foi noticiado que, de janeiro a abril, as montadoras brasileiras venderam 47,6 mil caminhões no mercado interno, 10% a menos que no mesmo período do ano passado. As exportações, por sua vez, recuaram 5%, para 7,3 mil unidades. Além disso, pressionada pelos altos estoques, a produção caiu mais ainda: somou 42,9 mil caminhões, 30% abaixo do volume de igual intervalo de 2011.
Mas isso já era esperado. Desde o ano passado empresários da categoria se anteciparam nas compras para escapar dos reajustes anunciados para 2012. Vale lembrar também que no início de 2012 entrou em vigor o padrão ambiental Euro 5, que inflacionou em até 15% os caminhões novos. Com esta regra, os novos caminhões só podem ser abastecidos com diesel S50, que tem teor reduzido de enxofre.
E isso também tem causado certo transtorno aos transportadores, uma vez que, embora a Petrobras garanta que mais de 1,3 mil postos brasileiros já tenham o S50, são comuns os relatos de que o combustível não é encontrado em todas as partes do país.
E estas medidas cautelares realizadas pelos empresários vão surtindo efeito em outros setores da economia, que afetam outros segmentos, e assim por diante.
E o resultado disso é a constante falta de um plano de reformas e de investimentos por parte de nossos representantes para garantir um crescimento de médio prazo mais robusto e que tenha mais credibilidade para os empresários.
Diante deste novo mas conhecido cenário, velhos problemas continuam a aparecer. As deficiências na área de infraestrutura, o sistema tributário arcaico e complexo e a falta de comprometimento de muitos políticos eleitos aparecem ainda mais em tempos como este.
Sim, o Brasil continua sendo a bola da vez, apesar dos problemas mencionados. Mas para continuar neste caminho, diante do momento econômico incerto que estamos vivendo, é preciso atitudes mais coerentes e honestas para que possamos analisar estes fatores como apenas oscilações casuais e não como algo que já era quase certo para acontecer.

GILBERTO ANTONIO CANTÚ é presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas do Paraná (Setcepar)

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res (55 li­nhas) e no mí­ni­mo 1.600 ca­rac­te­res (25 li­nhas).
Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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