Nunca se falou tanto em distúrbios de aprendizagem e de comportamento. Não é raro conhecer uma criança hiperativa, que sofre de dislexia (dificuldade no processo da leitura e da escrita) ou apresenta transtorno de deficit de atenção. São problemas comuns, que atingem principalmente crianças em idade escolar.
A preocupação que surge é que, na ânsia de aliviar os sintomas, a maioria delas é tratada com medicamentos fortes desde muito cedo. O Brasil enfrenta um processo de medicalização da educação e da sociedade em geral.
Para se ter uma ideia, dados do Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos (IDUM) mostram um aumento significativo no consumo de ritalina (cloridrato de metilfenidato) nos últimos anos. Em 2000, foram comercializadas cerca de 71 mil caixas e em 2010, esse número subiu para aproximadamente 2 milhões.
O tema tem gerado muitos debates. A principal crítica é que questões de cunho social, político e cultural estão sendo compreendidas apenas como doenças, que devem ser tratadas com remédios. ''Praticamente 100% dos casos que envolvem questões comportamentais não têm necessidade de introduzir medicação'', garante a psicóloga Marilene Proença, professora da Universidade de São Paulo (USP) e integrante da diretoria da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional (Abrapee), que participa do Fórum sobre Medicalização da Educação e Sociedade.
Em entrevista à Folha, ela ressalta que ''antes de afirmar que uma criança tem alguma doença, é preciso esgotar todas as possibilidades'', uma vez que as dificuldades enfrentadas pelos pequenos podem ser decorrentes de diversos fatores, que envolvem aspectos educacionais, sociais e culturais.
Marilene aponta ainda as consequências negativas do uso excessivo de medicamentos: ''Talvez a sociedade esteja se esquecendo o que é uma criança e exigindo que ela seja um pequeno adulto''.
Atualmente muitas crianças são consideradas doentes de forma precipitada ou inadequada?
Sim. Antes de afirmar que uma criança tem alguma doença, é preciso esgotar todas as possibilidades pedagógicas. Por exemplo, diante de uma criança que não presta atenção na aula, deve-se entender o que exatamente está acontecendo na escola, (verificar) se ela é a única a apresentar dificuldade, como é a relação da professora com a turma, qual é o ambiente, o método de ensino. Ao buscar essas explicações, normalmente identifica-se as reais causas do problema e com algumas interferências é possível alcançar melhoras significativas.
Mas o adulto normalmente relaciona a desatenção com algum funcionamento inadequado do cérebro e já busca uma patologia para justificar o comportamento. A desatenção pode não ser um problema individual, mas contextualizado.
E como identificar isso de forma correta?
Primeiramente é importante os pais conversarem com a coordenação da escola diante de qualquer problema ou insatisfação. Devem falar sobre as dificuldades percebidas e tentar entender o que está acontecendo. A escola deve ser o melhor espaço possível para a aprendizagem. Mas infelizmente nem sempre é o que acontece. Sabemos que a conduta da equipe pedagógica varia de escola para escola. Cada instituição tem uma forma de trabalhar, seja na rede pública ou privada. Mas percebemos que nos últimos cinco anos, quando um aluno apresenta uma dificudade, a grande maioria das escolas já caminha para a direção da doença. Os professores estão recebendo palestras e informações que defendem a ideia de que as dificuldades acontecem em razão de algum problema patológico. Fala-se muito em dislexia, Transtorno de Deficit de Atenção (TDA) hiperatividade e Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
E como diferenciar comportamentos e dificuldades normais de doenças que realmente exigem tratamento?
Não há nenhum critério ou diagnóstico para fazer essa diferenciação. Não existe um exame laboratorial que atesta a presença da dislexia, hiperatividade e transtornos de atenção. Os médicos utilizam um manual de diagnóstico da psiquiatria que traz descrições comportamentais para indicar a presença desses problemas. Para diagnosticar o TDAH, por exemplo, existe um protocolo que indica a existência - ou não - do transtorno. São dezoito questões, que no caso da criança são respondidas pelos pais e professores, que muitas vezes não avaliam a sua implicação no processo. O adulto deve se perguntar como está inserido no comportamento da criança. Muitas vezes ele age como se não houvesse nenhuma interferência e coloca apenas a criança como portadora de algum problema.
Eu diria que praticamente 100% dos casos não têm necessidade de medicação. Não se trabalha comportamento assim. É uma questão de reeducação. Existem diversas áreas para ajudar os pais, como a pedagogia, psicologia, psicopedagogia, fonoaudiologia, entre outras. A criança está em desenvolvimento, aberta para aprender o mundo.
Submeter a criança a um tratamento medicamentoso pode trazer quais efeitos no futuro?
No Brasil, temos três medicamentos bastante utilizados, cujos efeitos variam entre quatro e doze horas. São remédios recentes, que começaram a aparecer em meados de 1997 e 1998. A partir daí passaram a ser usados com essa finalidade. Todos têm o mesmo princípio ativo, que é o metilfelidato. Os médicos que criticam o processo de medicalização alertam que os medicamentos introduzidos são controlados, de tarja preta, com efeitos colaterais muito grandes em qualquer pessoa, pricipalmente em crianças. A medicação aparentemente vai trazer melhoras, mas na realidade o organismo está reagindo diante da quantidade de medicamento, o que não significa melhora.
Pais relatam que depois da introdução do medicamento a criança ficou mais quieta, passou a brincar menos, a ficar mais no quarto, apresentar sonolência e indisposição. O medicamento causa tudo isso. Estudos americanos mostram que grande parte dos jovens que estão em clínicas para se tratar contra as drogas utilizou medicamento forte na infância. E o uso dessa substância pode trazer ainda taquicardia, dor de cabeça e perda de peso.
Pais recorrem ao medicamento por ser um caminho relativamente fácil para resolver certos problemas? Seria uma muleta para não educarem adequadamente os filhos, uma vez que a imposição de limites é um processo trabalhoso?
Sim. Acontece o seguinte: os pais não entendem o que está acontecendo com o filho e procuram o médico, que diz que a criança tem um problema e indica o remédio. Quando a criança começa a ser medicada, as pessoas passam a enxergá-la de um jeito mais generoso e tentam entendê-la melhor. Nesse processo tudo acaba melhorando. Vai parecer efeito do remédio, mas tudo não passa dos efeitos da mudança de comportamento da família.
O processo educacional é uma relação estabelecida entre adultos e crianças. Muitos comportamentos são reflexo da sociedade em que vivemos hoje. É preciso ter cuidado antes de considerar uma criança hiperativa só porque ela corre e brinca. Criança é assim. Talvez a sociedade esteja se esquecendo o que é uma criança e exigindo que ela seja um pequeno adulto.

Serviço
Mais informações sobre o Fórum de Medicalização no site www.medicalizacao.com.br.

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